Um passeio pelas ruas de Manaus

Há mais de 100 anos, a riqueza e a sofisticação de Manaus eram tamanhas, que a capital do Amazonas foi apelidada de “a Paris dos Trópicos”. Hoje, esse apelido certamente destoaria da realidade. Mas ainda assim é possível visitar construções dos tempos áureos da cidade, como o Teatro Amazonas e o Mercado Adolpho Lisboa. Passeando a pé pelo centro de Manaus, pode-se conhecer essas atrações e ainda vivenciar a rotina do manauara; seja tomando guaraná batido, beliscando chips de banana pacovã ou degustando sanduíches de tucumã.

Como a maioria das pessoas adora olhar vitrines, as lojas de eletroeletrônicos produzidos na Zona Franca de Manaus é um bom ponto de partida para a caminhada. A área da Zona Franca, que está situada entre as ruas Eduardo Ribeiro e Dr. Moreira, até a altura da Avenida Sete de Setembro, já foi uma das principais atrações de Manaus, mas, com a abertura das importações no governo Collor, ela hoje possui preços similares aos praticados nas capitais do sudeste. Mesmo assim, vale a pena checar os lançamentos do mercado em matéria de câmeras digitais, Tvs de plasma ou aparelhos que gravam DVDs.

O guaraná batido

Caminhando pela Zona Franca em direção ao rio Negro, ao descer a rua Marcílio Dias, o visitante deve experimentar uma tradição local: o guaraná batido no liquidificador. A loja Guaraná Saterê preserva a tradição de servir o pó do guaraná misturado na água. Além disso, se junta também xarope de guaraná – para adoçar -, gelo e, conforme a preferência do freguês, amendoim, castanhas ou algum suco de fruta regional como cupuaçu ou taperebá. A funcionária da loja explica que é preciso maneirar na bebida, pois o guaraná possui três vezes mais cafeína do que o café, um forte energético. Mas caso o cliente tenha “problemas” em casa, a bebida pode ser a solução para fazer as pazes com a esposa, uma vez que os manauaras acreditam que ele seja afrodisíaco. O guaraná batido é servido em um copo descartável, o que permite ao caminhante seguir adiante com a bebida nas mãos. A estreita loja fica no número 257 da Marcílio Dias e vende, além do guaraná batido, a fruta em pó, xarope, ou semente.

A Lenda do Guaraná

A lenda do guaraná conta que existiam numa tribo indígena dois irmãos e uma irmã. Os irmãos sempre foram muito preguiçosos e exigiam constantemente a atenção da irmã para ajudá-los no dia-a-dia. Até que um dia ela engravidou e precisou se dedicar ao filho. Os irmãos ciumentos do belo menino de olhos negros decidiram assassiná-lo quando este tinha apenas cinco anos de idade. A mãe, em tristeza profunda, enterrou os lindos olhos de seu filho e acabou regando-os com suas lágrimas. Dias depois, uma bela planta nasceu no local e dela brotou uma fruta que se assemelhava aos olhos do menino. E assim surgiu o guaraná.

Assim como a maioria das capitais brasileiras, Manaus também sofre com o problema do comércio informal. O caos de ruas apinhadas de camelôs e transeuntes, além de carros estacionados em filas duplas e triplas, obriga o caminhante a ziguezaguear por entre barracas e desviar os ombros para não esbarrar nas pessoas. Só assim é possível seguir adiante. Para esquecer um pouco dessa agitação frenética, o melhor é fazer uma pausa para provar uma tradição local: a banana pacova.

A pacova é uma espécie gigante de banana muito comum na Amazônia. Assemelha-se à banana-da-terra e chega facilmente a 50 cm de comprimento. A fruta é encontrada em inúmeras barraquinhas no centro de Manaus e pode ser provada fritinha, na forma de chips, ou em pedaços cobertos com leite condensado e servidos em copos descartáveis.

A história de Manaus

A capital do Amazonas tornou-se conhecida como Manaós em 1833, ao ser elevada à categoria de vila. O nome é uma homenagem a uma tribo local que recusou ser dominada por portugueses. Localizada às margens do rio Negro, a cidade vivenciou seu apogeu no final do século 19 e início do século 20, época em que o lucro proveniente da extração do látex a tornou uma das mais ricas do país. Nesse período houve uma mudança brusca na estrutura da capital amazonense com a implantação de bondes, sistema de telefonia e até mesmo luz elétrica. Até então apenas o Rio de Janeiro, a capital nacional, havia recebido os benefícios da eletricidade.

Com o fim do ciclo da borracha, em meados de 1920, a cidade entrou em rápido declínio, conseguindo uma melhoria econômica somente na década de 60, com a criação da Zona Franca de Manaus. Nessa época, houve um súbito crescimento demográfico, com um salto de 200 mil habitantes na década de 60 para mais de 1 milhão em meados dos anos 80.

O mercado Adolpho Lisboa

Diante do mercado municipal, inaugurado em 1882 e também conhecido como Mercado Adolpho Lisboa, o caminhante irá sentir o quanto Manaus foi próspera. O estilo art noveuau pode ser identificado logo na entrada pela estrutura em ferro fundido e pelos vitrais coloridos. O mercado, que sobreviveu ao declínio da cidade, foi construído como uma réplica do antigo mercado Les Halles, em Paris. Depois de observar a beleza externa de sua arquitetura, um passeio pelos corredores internos do mercado revela a presença de barracas com frutas regionais, lojas que vendem artesanatos em plumas ou escamas de peixes amazônicos, além de senhoras que ensinam suas mandingas com raízes e brotos que prometem servir como antiinflamatórios ou até mesmo para curar impotência sexual.

Depois de conhecer o mercado, o caminhante deve continuar em direção à Praça da Matriz, para de lá seguir rumo ao Teatro Amazonas. Para isso, siga a Avenida Sete de Setembro até a rua Dr. Barroso. Nesta esquina está outro símbolo da sofisticação da cidade: a escadaria da Biblioteca Pública, inaugurada em 1871, onde se destaca a escadaria com detalhes em ferro rendilhado.

O X-caboclinho

Seguindo a Dr. Barroso em direção ao Teatro Amazonas, o caminhante pode dar mais uma paradinha e provar o sanduíche predileto dos manauaras: pão francês com tucumã. A Casa da Pamonha, no número 375 da mesma rua, oferece o inusitado sanduíche que é recheado com a fruta do tucumanzeiro. O tucumã é um coquinho que possui uma polpa firme, fibrosa e amarelada. Por ser oleosa, a fruta casa muito bem com o pão francês. Para aqueles que vêm de fora, cujo paladar ainda não é acostumado a exotismos, é possível provar o X-caboclinho, que consiste no sanduíche de tucumã com queijo coalho derretido por cima das lascas amarelas da fruta.

Depois de provar o X-caboclinho, é hora de conhecer a principal atração turística do centro de Manaus: o Teatro Amazonas. A construção fica numa área onde, ainda hoje, é possível caminhar tranquilamente enquanto se observam mansões que serviam de moradia aos barões da borracha. Esses ilustres moradores, que viveram em Manaus no ápice de seu esplendor, tinham como principal fonte de lazer as apresentações no Teatro Amazonas.

Diante do teatro, há uma praça que lembra a rotina de cidade do interior: pipoca explodindo na panela do pipoqueiro, crianças brincando em velocípedes, senhores de idade lendo o jornal, e avós empurrando o carrinho de bebê onde dorme o netinho. Nessa praça, curiosamente o caminhante mais viajado irá notar que o desenho das pedrinhas de ladrilho é o mesmo da praia de Copacabana: ondas pretas e brancas que correm lado a lado. Mas o que ele não sabe é que o verdadeiro significado deste desenho é o encontro dos rios Negro e Solimões. Apesar de Copacabana ter recebido fama mundial por causa de sua calçada, a idéia surgiu em Manaus há mais de 100 anos.

No Teatro Amazonas, as visitas são guiadas por especialistas e acontecem de meia em meia hora. Ao percorrê-lo, o visitante tem uma noção realista de quão rica foi Manaus. O passeio, que dura aproximadamente 30 minutos, se estende a todo o teatro: os bastidores, os camarotes e os salões repletos de significado cultural e histórico.

Depois de conhecer o símbolo da cidade, o visitante deve voltar ao ponto de partida pela Avenida Getulio Vargas. Nela, está a última parada do passeio: a Sorveteria Glacial. Apesar de haver muitas opções de sabores, é aconselhável fugir dos mais tradicionais e experimentar as frutas locais como açaí, taperebá, graviola ou cupuaçu. E, assim, com o sorvete em mãos, pode-se relaxar numa das mesas da calçada e ver o povo manauara seguir adiante em sua rotina diária.

Onde Comer

Pizzaria Loppiano
Rua Major Gabriel, 1080
(92) 3622-4000
Guaraná Saterê
Rua Marcílio Dias, 237
(92) 3233-8113
Casa da Pamonha
Rua Barroso, 375
(92)3233-1028
Sorveteria Glacial
Av. Getúlio Vargas 161-A
(92) 3233-4172