O conforto das luzes amarelas
A placa de sinalização à beira da BR-259 anuncia a altitude: 1.380 metros. Diamantina, uma das mais altas cidades mineiras, está a menos de 10 km de distância. Minutos depois de avistada a placa, o antigo Arraial do Tijuco começa a surgir. Ainda ao longe, Diamantina se mostra incrustada no meio da formação rochosa que constitui a Cadeia do Espinhaço.
A elevada altitude, assim como o paredão de granito que circunda a cidade, colabora para tornar a temperatura mais amena. Descendo a ladeira em direção ao centro histórico, pode-se imaginar comidas perfeitas para os dias mais frios: um frango ensopado, canjiquinha, caldos, doces em compotas…
A noite começa a cair. Os postes se acendem. O conforto das luzes amarelas, as ruas cobertas de pedras, tudo atiça a beleza do lugar. Agora basta achar algo quente para preencher o corpo. Quem sabe um chocolate com conhaque? Ou um caldo de feijão? Ao chegar em frente à Igreja Matriz, o melhor é ir logo abandonando o carro. Dirigir pelas ruas com calçamento pé-de-moleque é loucura. Num curto passeio, qualquer romântico logo vai achar um fogão à lenha para se esquentar.
É noite de domingo. A cidade está vazia. A impressão de ter voltado no tempo é ainda maior que num dia de semana. O silêncio pode ser ouvido. Depois de saborear um bom caldo, basta entrar debaixo de um pesado cobertor. Nessa noite, o sono será fácil.
Pelas Ruas de Diamantina
Após o café da manhã com mingau de fubá, arroz doce coberto com canela, biscoitinhos caseiros, sucos e frutas do pomar, a digestão deve ser feita com uma caminhada pelas ruas da cidade. Percorrendo as redondezas do antigo mercado dos tropeiros, nota-se que a segunda-feira está ainda no ritmo do final de semana. Ou será que esse caminhar mais tranqüilo do povo é apenas o cotidiano do diamantinense? Horas depois, mesmo com o sol alto, o ritmo do comércio parece estar ainda em segunda marcha, bem mais cadenciado que o de costume daqueles que vêm de fora.
Tião vende bananas colhidas de seu sítio
Sebastião e dois senhores batem papo, sentados na escada diante de uma loja. Tião vende bananas colhidas de seu sítio. Pencas da fruta descansam empilhadas em cima de um carrinho de mão – o preço de cada uma a um real. “Para facilitar o troco”, explica Tião. Quando acabar as bananas, basta que ele empurre o carrinho de volta para seu sítio e recarregue com algum outro produto qualquer. “Tem alho, laranja, quiabo, mandioca: tudo plantado por mim e colhido da terra também por mim”. E quando chega a época de outras frutas, tais como jabuticaba, marmelo, pequi, pode ter certeza que o carrinho de mão de Tião estará em algum canto da cidade.
Sol a pino. Na ponta dos pés, o garoto Emerson, usando apenas short e chinelo de dedo, tenta apanhar um galho de árvore repleto de nêsperas – uma ameixa amarela com mais de um caroço e pele aveludada. A árvore está carregada da fruta, mas os galhos estão altos para esse menino de pouco mais de 1,20m. Emerson faz de tudo para apanhar o galho de frutas: pula parado, pula correndo. O galho fica a poucos centímetros de seus dedos após cada um dos pulos. Ele persiste. Com um graveto, puxa o galho para junto de si, e apanha um punhado das frutinhas amarelas, que ele devora, uma a uma, feliz da vida.
Com o cair da tarde, a cidade é banhada pela luz dourada do sol. Um morador garante que, no mês de julho, na hora do sol poente, a Serra dos Cristais que circunda a região fica banhada pela cor de ouro. À noite a cidade começa a se esvaziar. A tranqüilidade se impõe. Comerciantes, estudantes, doutores, todos vão se retirando em direção a suas casas. Imagina-se que todos devem levantar bem cedinho. Talvez, nesse antigo arraial, acordar cedo não seja apenas tradição, mas sim um prazer cultivado.

