Sábado no mercado dos tropeiros
Durante a semana, o viajante que visita o Mercado Municipal de Diamantina, antigo rancho de tropeiros, vai encontrar uma construção histórica bem cuidada, de 1835. Nele, tropeiros vindos das mais longínquas regiões se reuniam para vender, comprar ou até trocar mercadorias, conforme a necessidade de cada um. Também no passado, Oscar Niemeyer se inspirou nos arcos do mercado para desenhar o projeto do Palácio do Alvorada.
Mas é nos sábados de manhã que o presente se faz vivo no antigo centro dos tropeiros. Nesse dia, além de conhecer a história do local, se encontra a alegria no rosto de cada um dos produtores e feirantes locais. Se durante a semana a atração é a construção em si, nos sábados ela passa a ser o povo que ali vende seus produtos.
Turistas, moradores locais, crianças, idosos: todos fazem parte desse rico ambiente. Um lugar aonde a tradição e os costumes locais ainda permanecem vivos. Cada um dos produtores exibe orgulhosamente sua produção artesanal. Há doces de banana, caldo de mocotó, suco de pitanga, biscoitos de goma, melaço, balas de mel, e outras delícias aos montes.
Pode-se ouvir o borbulhar de um salgadinho na fritura, sentir a maciez de um caldo tocando o palato, ou até proferir um “aaaaah” após o entorno de um copo de cachaça. Se Niemeyer viesse hoje a Diamantina, iria se inspirar nas cores dos licores, nas fileiras de réstias de alho dependuradas, nos montes de espigas de milho pelo chão, ou nas barras retangulares de requeijões escuros embrulhados em folha de bananeira.
Dona Áurea Tatu é conhecida por ser a cunhada de Dona Angelina, a doceira oficial de JK. O ilustre diamantinense adorava os bombocados de Dona Angelina. Hoje, com quase noventa anos, ela só vem à feira para passear. É Dona Áurea quem mantém viva a receita famosa, além de preparar saborosos caldos que causam filas diante de sua barraca. Os bombocados devem ser encomendados, mas cajuzinhos, brigadeiros, e mini salgadinhos como empadinhas de queijo, frango, coxinhas e pasteizinhos podem ser provados a trinta centavos cada.
Uma estranha verdura prende a atenção dos turistas. “É maxixe”, explica o vendedor, apanhando um saquinho cheio deles. “Existem dois tipos de maxixe, o fofo e o espinhudo. O fofo deve ser cozido na água, e depois recheado com carne moída. Já o espinhudo deve ser comido cru, e serve para amansar o calor de quem tem febre”. Os maxixes são do tamanho de um jiló e vendidos a dois reais o saco com aproximadamente dez unidades.
Em cima de uma mesa, uma foto explica a exótica iguaria exposta para ser vendida. É o “kobu”. A descrição diz ter sido “elaborada pelos negros de uma tribo africana de nome Kobu, que viveram como escravos na fazenda de Maria Gouveia, fundadora da comunidade de Gouveia [localizada nos arredores de Diamantina]. O produto é feito manualmente, enrolado em folha de bananeira e assado em forno de barro. Os ingredientes são: fubá, cravo, queijo, açúcar, sal e coalhada”. O kobu pode ser saboreado ao preço de dois reais.
Numa outra barraca, nota-se bolotas amarelas em conserva dentro de um vidro. “É pequi”, explica o vendedor. A fruta está fora da época, entre novembro a janeiro, mas a conserva serve para preservá-la como tempero durante todo o ano. O pequi é uma fruta do cerrado bastante encontrada nos arredores de Diamantina.
Seu uso principal é o de temperar o arroz. “Basta picar o miolo e misturar ao arroz junto com carne moída, Ou pode-se usar o óleo da conserva para dar gosto a refogados”, ensina o feirante, que se diverte ao contar sobre turistas desavisados que provam o pequi pela primeira vez. “Eles pegam a fruta e vão logo mordendo. Daí, a boca fica um amargor só. O pequi é uma fruta chata, espinhuda. A parte de fora não pode ser comida, só o miolo presta. Precisa primeiro chegar até ele, e depois ir roendo com os dentes, que nem um ratinho”.
h2. Prosa com sabor
As balas-delícia de Dona Marlene são famosas em Diamantina. As balas, tão comuns nas cristaleiras das casas dos avôs anos atrás, hoje se tornaram uma relíquia. As que Dona Marlene faz vêm recheadas de dois sabores: coco ou chocolate. Sua preferida? “A de coco, claro. A outra, a de chocolate, é só moda”. Os ingredientes são somente leite de coco e açúcar, mas o preparo não é tão simples assim. “Tem que ficar mexendo um tempão no tacho, deixar esfriar, depois puxar, e esticar várias e várias vezes”. Se depender de Dona Marlene, as balas-delícia nunca serão apenas parte das memórias de infância.
Dentro de uma caixa de isopor ao chão, há frangos inteiros. Provavelmente, foram depenados na véspera. Os frangos estão dentro de um saco plástico com um nó na ponta. Numa mesa ao lado, descansam sacos plásticos, um do lado do outro, cheios de um líquido escuro que pode causar estranheza para quem não é da região. Mas para quem é mineiro, não há nada de esquisito; não há como preparar um frango ao molho pardo sem o sangue.
Em outra barraca, um senhor idoso chupa uma laranja. Em caixas de plástico a seus pés, há tipos e tamanhos diferentes de laranja: cidra, zamboa, cravina e serra d’água. O feirante, mais de setenta anos nas costas, confessa que sua boa forma física se deve ao fato de gostar tanto de laranja. “A cidra é essa verde aí. Enorme, né: É usada para fazer doces. Mas cuidado”, alerta, “tem gente sacana que usa mamão verde no lugar dela”. Todas as laranjas vêm do pomar de seu sítio aos arredores de Diamantina.
“A zamboa é outra laranja gigante; a cravina é ótima para fazer doces, é meio enrugadinha, parece uma mexerica, mas é uma delícia. Combina bem com queijo e doce-de-leite”. Ele termina de chupar a laranja e vai logo apanhando outra. “Essa aqui é a favorita das crianças: a serra d’água”, indica, enquanto descasca a fruta. “É a mais doce das laranjas. Menino nenhum faz cara feia quando chupa a serra d’água. Só que agora meus netos inventaram de só querer chupar serra d’água. Senão, dizem que só serve para fazer suco”.
Dona Sinhá gosta de comer seu tropeiro bem cedo. “É assim que as tropas faziam: comiam pela manhã, assim que acordavam”. Ela devora seu café da manhã numa cumbuca rústica junto ao colo. Sua filha é quem cuida da barraca. Dona Sinhá brinca que “gosta de ir ao mercado só para ver os moços bonitos – “se bem que quando o pessoal bonito da televisão esteve na cidade, num gostei deles não”.
Ela se refere aos atores da novela Os Irmãos Coragem da rede Globo, gravada em Diamantina e arredores. “Era gente endinheirada pra lá e pra cá. Mas num gostavam muito de prosear não, só de comprar”. Sua filha, rindo, concorda. Dona Sinhá diz que ir ao mercado sem prosear não tem graça. Ela sabe que é o povo do mercado que o faz ser um lugar tão pitoresco. Senão, bastava visitá-lo num outro dia da semana, e não no sábado pela manhã.
- Mercado Municipal – antigo Rancho dos Tropeiros: Praça Barão do Guaicuí, 170 – Diamantina – MG – Feira dos produtores locais aos sábados pela manhã

