O pomar de Lori
Uma estrada de terra batida, estreita e sinuosa, leva o viajante até a Pousada do Capão. Seu dono, Lorival Figueiró, o recebe com um sorriso. É ele quem guia o viajante através do jardim bem cuidado até o casarão principal. O aconchego do local e o bom gosto do proprietário convidam quem chega para dias extras de hospedagem.
Lori, como prefere ser chamado, faz questão de fazer o hóspede se sentir em casa. Vai logo oferecendo um cálice de licor de cor âmbar. “Humm, banana, né?”. Ao lado do casarão principal, todos os produtos feitos na pousadas estão à venda: doces de banana, abóbora com coco, mamão com rapadura, além de licores, cachaça e do artesanato do vilarejo de São Gonçalo do Rio das Pedras.
Criado em Diamantina, Lori tem a pousada desde 1998, quando a comprou de um amigo. Diz que “foi coisa do destino e, aí, não há como discutir”. A Pousada do Capão está há pouco mais de mil metros da Igreja da Matriz, ponto central de São Gonçalo, num terreno amplo que inclui um pomar cercado por muro de pedras levantado pelos escravos. Por toda a pousada há quadros com citações de autores consagrados: Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Affonso Romano de Sant’Anna, Guimarães Rosa. A temática das frases é a comunhão do homem com a natureza, assim como a busca da plenitude entre tempo e espaço.
Direto do Quintal
No fim da tarde, nota-se o aroma de pães sendo assados. No casarão principal, a mesa está posta com manteiga e queijo do Serro. Tuquinha, a cozinheira oficial da pousada, côa um café. É mais um aroma que se mistura ao dos pães recém saídos do forno. Na pousada de Lori, a diária é completa, inclui almoço, jantar, além de vários quitutes ao longo do dia. Mais tarde, quando o céu já está estrelado, Tuquinha coloca um caldo em cima do fogão à lenha. É o que há de melhor para esquentar a noite fria. Depois de uma fatia de pão, uma taça de vinho tinto, alguns doces caseiros, e mais um cálice de licor de banana, o sono vem com facilidade.
No dia seguinte, depois do café da manhã com bolinhos de chuva, biscoitos, frutas colhidas no pé, e até um iogurte com granola caseira, Lori faz questão de acompanhar o hóspede num passeio por seu pomar. É dali que vem praticamente toda a matéria prima utilizada na pousada. Ele explica que não foi tão fácil fazer com que tudo crescesse na sua horta. “No ínicio não dava nada. Só depois de corrigirmos a acidez do solo com um produto alcalino, o cálcio, é que o pomar mostrou-se revigorado”.
Lori passeia pelo pomar mostrando tudo: pés de goiaba, quiabo, abacaxi, laranja, mamão, tangerina, mandioca, jiló, maxixe, caju, etc, etc. Até que pára diante de uma árvore e apanha uma fava – o andu -, um feijão miúdo trazido da África, que dá em galhos de árvore. Colhe algumas favas e diz que irá pedir para Tuquinha prepará-las no almoço. Conta que há dois tipos de andu, o verde e o maduro. “O verde é ideal para farofa, basta cozinhar e refogar junto de torresmo, ovos, cebola e salsinha. Já o andu maduro, esse dever ser feito igual o feijão comum”.
Lori, favas de andu apoiadas junto do corpo, volta a caminhar pelo pomar. Agora mostra a samambaia. “Essa cresce aos montes em solo ácido. Como essa parte do pomar não tem cálcio, aí está ela. A samambaia fica uma delícia se refogada e acompanhada de costelinha”. Lori apanha um broto e mostra sua ponta. “Mineiro é tudo pão duro, né? Não?! Então é o quê? Ah sim, é munheca de samambaia. Taí o motivo da expressão”, brinca Lori ao mostrar o formato de uma mão fechada na ponta da planta.
É hora do almoço. Tuquinha coloca várias panelas de pedra sobre o fogão à lenha. Não há como resistir: arroz, feijão, lagarto ao vinho, bolinhos de mandioca, folhas de mostarda refogada, e a prometida farofa de andu. Após a saborosa refeição, o pano que cobria os doces na mesa ao lado é retirado por Dirce, ajudante de Tuquinha. Depois da sobremesa e de um gole de café, o cochilo numa das redes estendidas nas varandas é bem vindo. Pronto, a sensação de plenitude mais uma vez está estabelecida.

