Comprando queijo no açougue

Serro não é somente a cidade localizada no vale do Alto Jequitinhonha, mas também o nome do queijo minas de sabor levemente ácido produzido na região. Em agosto de 2002, o queijo do Serro foi tombado como o Primeiro Patrimônio Imaterial de Minas Gerais pelo conselho curador do Iepha – Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico.

Se o Serro é um dos melhores queijos do Brasil, um dos melhores queijos do Serro é o de seu Alfredo. Seu queijo já foi diversas vezes premiado em exposições agropecuárias como o melhor da região. Seu Alfredo mora com a mulher Dona Lurdinha numa fazenda a 20 minutos da cidade. Ela acaba de passar um café fresco e tem o rádio ligado. Em cima dele, um copo d’água espera a bênção de Nossa Senhora da Aparecida que acontece diariamente às três horas da tarde.

A chamada é feita pela voz de Cid Moreira. Em seguida, o padre local faz a reza. Ao término da bênção, Dona Lurdinha bebe a água do copo e faz o sinal da cruz. Enquanto isso, Seu Alfredo coloca duas garrafas térmicas sobre a mesa e explica: “um é café forte, sem açúcar; o outro é fraco e adoçado. Assim, as visitas podem escolher o que preferem. Eu, por exemplo, misturo o forte com o fraco para ficar bom”. Dona Lurdinha abre uma lata de biscoitos caseiros, outra de polvilho, e coloca em cima da mesa junto de um doce de leite enformado que acabou de sair do forno.

Depois, volta-se para a pia da cozinha e começa a lavar os pratos com água bem quente. O marido explica que seu fogão à lenha tem serpentina de cobre, fazendo a água permanecer em altas temperaturas por bastante tempo. “A água entra fria no cilindro de armazenamento e sai fervendo”. Enquanto muitos na capital ainda sonham em ter água quente na torneira da cozinha ou do banheiro de casa, Seu Alfredo conta que tal conforto já chegou na roça há muito tempo.

Mas o orgulho da fazenda não é a serpentina de cobre, e sim o queijo produzido num pequeno quarto do lado de fora da casa. Ao entrar no local aonde é feito o Serro, o cheiro prazeroso e característico do “pingo” – o fermento lácteo do queijo desta região – nunca será esquecido pelo visitante. Em cima de uma mesa, vários queijos descansam cobertos com um pano branco. A umidade e a temperatura do local são controladas, assim como o tempo de salga e maturação.

Da fazenda de Seu Alfredo e Dona Lurdinha, o lote de queijo vai para o “laticínio” – nome pelo qual é conhecida a fábrica aonde os queijos da região são inspecionados. Na fábrica, a qualidade do queijo é averiguada e classificada como extra – o melhor -, de primeira ou de segunda. Depois, é embalado com o carimbo do número do lote da fazenda (o lote de Seu Alfredo é o de número 06) e enviado para a cooperativa na cidade do Serro ou para mercados municipais de outras cidades.

A cooperativa do Serro

Numa visita à cooperativa do Serro, a prestativa funcionária Helizete explica que todas as embalagens do queijo são idênticas. Mas cabe ao comprador examinar o verso do rótulo e escolher o número do lote de sua preferência. Cada número corresponde a um produtor diferente. Na cooperativa, são vendidos apenas os queijos classificados como extras à R$ 5,50 o quilo.

Além da cooperativa, pode-se achar ótimos queijos nos açougues da cidade. São produzidos em menor escala e sem constância de fornecimento. Na Casa de Carnes Ivituruy está o queijo do Renato, um dos melhores da cidade. Exposto ao lado de ganchos de carne vermelha ao preço médio de R$ 4,50 o quilo, seu sabor nada deve a um bom brie ou camembert francês. A seu lado, estão outros produtos lácteos como doce de leite, manteiga e queijo ralado para fazer pão de queijo, tudo a preços honestos.