O tesouro dentro das casas
A antiga Villa do Príncipe, terra rica durante a exploração do ouro no século XVIII, foi a primeira cidade brasileira tombada pelo patrimônio histórico e artístico nacional. Com mais de 300 anos de fundação, o Serro – como a cidade passou a ser chamada desde 1838 – guarda a riqueza do passado na sabedoria de seus moradores. Dentro de suas casas, segredos são repassados de geração em geração; do método de assar em fornos feitos de cupinzeiros ao capim ideal para fazer vassouras que limpem as brasas. Conhecer as quituteiras trabalhando detrás das portas de suas casa é um privilégio para poucos, sendo que muitas delas só se dedicam ao ofício quando surge uma encomenda. Uma dessas é Dona Maria das Dores.
Dona Maria das Dores
Das Dores, ou Dasdó, como é conhecida no Serro, trabalha na mesa de madeira de sua sala de jantar. O marido Santos Saldanha é quem enrola os biscoitos em forma de rosquinha. Sua eficiência no trabalho manual impressiona. Dasdó acaba de colocar mais uma leva de biscoitos-rosquinha no forno. “São encomendas da capital. Foi pedida meia lata para amanhã”, conta. Ela mede as encomendas em latas, meia ou inteira. A medida em questão é uma enorme lata de 50 litros de banha, devidamente lavada, esterilizada e plastificada. As encomendas partem sempre no primeiro ônibus do dia para Belo Horizonte. Lá, seu filho apanha a encomenda e entrega na casa do cliente. Além de biscoitos-rosquinha, Dasdó aceita encomendas de biscoitos quebra-quebra, de polvilho, de goma, palito e outros.
O Pastel de Carlinhos
Na casa de Carlinhos Xavier, sua preciosidade e sustento diário provêm do pastel folhado. Feito num canto do quintal, nos sabores de carne ou queijo, o salgado é revendido para diversos bares e restaurantes do Serro. Em alguns lugares, a entrega é feita até três vezes ao dia, pois Carlinhos sabe que é essencial que o pastel seja o mais fresco possível. Ele ainda pede a seus clientes que o pastel seja frito, de preferência, diante do freguês. Assim ele estará sempre crocante e quentinho. Todos na cidade já provaram ou ouviram falar de seu pastel folhado. Tanto é que em datas especiais, como aniversário ou casamento, Carlinhos sempre recebe encomendas extraordinárias. Nesse caso, ele conta com a ajuda de sua filha para conseguir atender a demanda.
Filha de tropeiros
Dona Maria Garcia é filha de tropeiro. Aguiar, o pai, costumava trabalhar no trecho Colunas – Diamantina durante os anos 30. Para manter sua fazenda, ele precisava apenas de querosene, sal e farinha de trigo. Para a troca, levava café, rapadura, toucinho, arroz e feijão. Quando em viagem, Seu Aguiar sempre portava uma carabina, dormindo junto dela por causa da ameaça de ataques de onças e jaguatiricas, além do receio de ser assaltado por forasteiros.
Ao acordar, a primeira refeição da tropa costumava ser o tradicional “tropeiro”, uma vez que precisavam de sustância para seguir viagem. O feijão ficava cozinhando na trempe durante a noite e, de manhã, juntava-se a ele farinha de milho, torresmo e toucinho. Após a refeição, enquanto os tropeiros se preparavam para partir, a tropa da cozinha já estava longe. O cozinheiro e seus acompanhantes eram sempre os primeiros a partir, pois quando a tropa chegasse a refeição tinha que estar pronta. O cardápio, servido pouco antes de anoitecer, se resumia a arroz e carne, provavelmente de porco por cozinhar mais depressa.
O borralho – cinza quente que sobra quando a fogueira está se apagando – era usado para assar mandioca, inhame, banana-da-terra e até mamão verde. Como os tropeiros raramente paravam para se alimentar durante o dia, mini refeições eram feitas no lombo dos cavalos e burros. A paçoca era um item bem popular, pois era fácil de comer e satisfazia. E havia aqueles que gostavam do “tapa na boca”, uma iguaria muito comum em viagem curtas, que consistia de farinha de milho, queijo ralado e rapadura misturados numa lata qualquer. Era acompanhado de um gole de café frio, podendo este ser elegantemente aromatizado com erva doce.
Ao chegar em Diamantina, Seu Aguiar e a tropa deixavam as garruchas, espingardas ou carabinas com o encarregado das armas na entrada de cidade. Com isso, qualquer possibilidade de confusão era evitada. Ao entrar povoado adentro, a alegria era grande. Moradores e tropeiros faziam festa e barulho. Afinal, os tropeiros chegavam à cidade depois de dias difíceis de viagem, e traziam junto de si moradores o que havia de melhor para ser saboreado pelos moradores: açúcar, carne, vinhos, azeitonas, azeite, bacalhau, nozes, farinha de trigo e até iguarias importadas vindas de cidades portuárias. Sempre aguardados com ansiedade, os tropeiros eram recebidos como heróis, tamanha a algazarra da população.
- Quituteira: Dona Maria Das Dores e Santos Saldanha – Biscoitos caseiros por encomenda – Tel:(38)3541-1192

