A família Tropia

Seu nome era o mesmo do personagem central do filme Cinema Paradiso, assim como a paixão pelo cinema e a nacionalidade italiana. As semelhanças terminam por aí. Enquanto o Salvatore do filme ficou na Itália e se tornou um bem sucedido cineasta, o outro se viu, aos cinco anos de idade, dentro de um navio junto dos pais e em direção ao Brasil. Na bagagem, o sonho comum dos emigrantes: “fazer a América”.

Ao desembarcar em solo brasileiro no final do século XIX, o pequeno Salvatore se tornou conhecido como Salvador. Nascido em Agrigento, na Sicília, acabou crescendo na Ouro Preto de intermináveis dias de neblina, ruas de pedra frias e silêncio perturbado apenas pelo badalar dos sinos. Com a mudança da capital para Belo Horizonte e a conseqüente desvalorização imobiliária, a família Tropia adquiriu inúmeros casarões espalhados ao longo da cidade histórica.

Salvador Tropia sempre foi um idealista. Seu sonho era enriquecer o povo com cultura e entretenimento. Foi ele o pioneiro da exibição cinematográfica em Minas Gerais, além de fundador do primeiro armazém de secos e molhados na antiga capital mineira. Anos depois, o local se transformou no primeiro restaurante da cidade, além de sorveteria.

Nessa época, no final da década de 50, um freguês chamado Guignard gostava de desenhar nas mesas de mármore. Os garçons não o suportavam, chamando-o de velho bêbado, irritando-se por sempre terem de limpar os desenhos do desconhecido. Antes tivessem guardado aquelas pedras de mármore, hoje estariam milionários.

No início da década de 60, Salvador vendeu seu estabelecimento a um espanhol de nome Parras. Este batizou o restaurante de Taverna do Chafariz. Anos depois, com o falecimento de Salvador, os filhos se reuniram e compraram de volta o restaurante, mantendo a sociedade até 1975. Nesse ano, a administração foi transferida a Orlando, um dos sócios, e seu filho Vicente. O Taverna do Chafariz seguiu sob a administração de pai e filho até o ano de 1994, quando Orlando veio a falecer.

De pai para filho

Sentido com a morte do pai, além de incertezas quanto ao rumo dos negócios, Vicente decidiu mudar o nome do restaurante para Chafariz. Ele considerava pesada a palavra “taverna”, não combinava com a alegria que almejava para conseguir seguir em frente. Outra mudança foi a alteração do cardápio. Vicente eliminou pratos presunçosamente chamados de “internacionais”, tais como Filet à Cubana, Lombo à Califórnia, Steak au Poivre e outros. “O Chafariz estava em Minas Gerais, terra de gastronomia rica e saborosa. O certo era ter cardápio exclusivo de comida mineira”, conta o neto de Salvador.

Vicente, de vez em quando olha os bonequinhos do Gordo e o Magro, símbolos do restaurante Chafariz, com um certo desdém. Ele não gosta de ter símbolos americanos em seu restaurante. Mas sempre acaba lembrando de seu avô e de todo seu empenho em querer erguer um cinema na cidade, dando diversão ao povo. “Afinal das contas”, reflete Vicente, “os bonequinhos do Gordo e o Magro podem ser encarados como símbolos do cinema, um entretenimento universal e não exclusivamente americano”.

Eu só vendo o que vendo, vendo.

O restaurante Chafariz é hoje sinônimo de comida mineira na cidade. O torresmo é crocante e sequinho, a lingüiça tem sabor. No início da refeição, cachaça, no fim, licor de jabuticaba. E durante? Pode-se escolher entre bambá de couve – espécie de caldo de frango engrossado com fubá e acompanhado de couve, costelinha e lingüiça -, frango ao molho pardo, tutu ou tropeiro, angu mole, broto de samambaia, língua ao molho madeira, dentre outros.

As melhores mesas do restaurante estão na saleta aos fundos, perto da janela. A vista é a bucólica parte baixa de Ouro Preto. Quase sempre há uma plaqueta de reservado em cima dessas mesas. É apenas uma mania da casa. Basta pedir aos garçons ou ao Vicente e a mesa será sua. O ambiente não pode ser mais aconchegante: parede de taipa, móveis imponentes e pesados, vidros coloridos na estante. A casa, que foi a antiga moradia do poeta Alphonsus de Guimarães, data de 1760.

O restaurante Chafariz só abre durante o dia. Vicente diz que a comida mineira não combina com a noite. Mas ele mesmo sabe que isso não é verdade e confessa que o horário diurno é porque ele precisa de descanso. Como diz, mencionando uma placa que viu no nordeste: “eu só vendo o que vendo, vendo”. Ele está ciente da importância de ver tudo aquilo que vende. “O dono precisa estar sempre no restaurante. Sempre mesmo. Se algo sai errado, o cliente vai falar mal do lugar para outros. Isso nunca pode acontecer”. Vicente quer ver seu cliente sair sempre satisfeito. Não é a toa que o Chafariz existe desde 1960.

Outros restaurantes da família Tropia

O Passo
O nome deve-se à encenação dos passos de Cristo que acontece em frente ao restaurante durante a Semana Santa. O local tem mesas num terraço com vista para a cidade, trilha sonora de jazz, e saborosas pizzas como a de Quatro Tomates (molho de tomate, tomate seco, tomate cereja, tomate italiano, alho, manjericão e mussarela), e Parma com Gorgonzola.

Café Geraes
A máquina de expresso é acionada constantemente. Seus sons e o aroma do café preenchem o ambiente. A antiga caixa registradora decora o local junto de um belo piano de cauda que é tocado quinzenalmente. No andar de baixo, a iluminação de velas e as paredes de pedra tornam o clima ainda mais romântico. No cardápio, além de tortas e cafés, ideais para o fim de tarde, há saladas, sanduíches, e sugestões do chef como: filet com molho de jabuticaba e penne ao pesto, e salmão com molho de maracujá.

Casa do Ouvidor
Subindo a escada, chega-se ao restaurante especializado em comida mineira. O local abriga uma sacada com floreiras sobre a Rua Direita. Ao contrário do Chafariz aonde o serviço é de buffet, o cardápio da Casa do Ouvidor é a la carte. Suas especialidades incluem um delicioso frango com quiabo e angu, além de frango ao molho pardo, tutu com lombo, e tropeiro com linguiça.

Onde Comer

Restaurante Chafariz
Rua São José 167
(31) 3551-2828
O Passo
Rua São José, 56
(31) 3552-5089
Café Geraes
Rua Direita, 122
(31) 3551-5097
Casa do Ouvidor
Rua Direita, 42
(31) 3551-2141