As duas Marias e o Ora Pro Nobis
Pompéu, fundado em 1731, surgiu a partir da exploração de minas auríferas. Um dos primeiros imigrantes na região foi José Pompeu, daí o nome do povoado, que morreu assassinado pelos Emboabas em 1708. Hoje, Pompéu, um distrito de Sabará localizado há cinco quilômetros da cidade, é conhecido por abrigar anualmente no mês de maio o Festival do Ora Pro Nobis.
O ora pro nobis já foi considerada apenas uma moita espinhenta, boa para fazer cercas. Mas acabou ganhando fama e nobreza junto à culinária mineira. Sua rusticidade é grande, uma vez que cresce com facilidade. O ora pro nobis é uma planta da família das cactáceas. Dizem que a origem de seu nome, traduzida do latim como orai por nós, se deve à existência da moita no quintal de uma igreja. Quando o padre começava a reza final, o ora pro nobis, a mãe mandava seu filho apanhar a folha para ser usada no almoço.
A planta é também conhecida como a “carne do pobre” devido a seu alto teor de proteína. Análises feitas mostram possuir 25% de proteínas, e ter digestibilidade de 85%. A folha não deve ser lavada para que não perca suas qualidades protéicas – recomenda-se apenas limpar com pano úmido. Deve ser rapidamente refogada e, se possível, acompanhada de um frango bem temperado, costelinha, ou angu.
Em Pompéu, há duas boas opções aonde encontrar o ora pro nobis: o restaurante Jotapê, fundado por Dona Maria Madalena e atualmente administrado por sua filha Iara, e o restaurante Moinho D’Água, fundado por Maria Fonseca das Torres e administrado por seu filho. Ambas as Marias são personalidades no distrito, sendo as principais responsáveis pela divulgação do ora pro nobis como iguaria tipicamente mineira.
A receita favorita com ora pro nobis de Dona Maria Madalena é seu lombo recheado com ora pro nobis. Ela explica como fazê-lo: “Primeiro, abra o lombo em manta e tempere com sal, alho, pimenta do reino, ervas e vinho branco. Deixe-o marinar nesse tempero por algumas horas. Depois, cubra-o com ora pro nobis cru e picado. Rale um pouco de queijo minas por cima. Em seguida, basta enrolar como se fosse um rocambole e amarrar bem. Leve-o ao forno brando por umas duas horas, e pronto”.
Dona Maria Madalena é mãe de Iara. A filha é a responsável pelo restaurante Jotapê. Este nome deve-se às iniciais do pai, José Pinto. O senhor José também é conhecido no distrito por fabricar uma cachaça de mesmo nome. Seu alambique está localizado no mesmo terreno do restaurante. A cachaça Jotapê existe desde 1989 e possui o selo de qualidade da AMPAQ – Associação Mineira de Produtores de Aguardente de Qualidade.
O nome do restaurante de Dona Maria da Fonseca Torres não é uma enganação. Existe mesmo um moinho d’água no Moinho D’Água. Basta pedir a Dona Maria, e ela o levará para conhecê-lo. No moinho, faz-se o fubá usado para fazer o angu que seus clientes tanto adoram. A anfitriã continua o tour mostrando um caroço verde chamado jurubeba. A jurubeba deve ser aferventada antes de ser comida junto de carne moída. Seu gosto é amargo, e também pode ser usado para incrementar cachaças e licores.
Dona Maria Fonseca foi a primeira pessoa a divulgar o ora pro nobis para clientes vindos de fora do distrito. Tudo começou no final da década de 80 quando um chato bom de lábia a convenceu de criar marrecos em seu terreno. “Eu não queria nem saber de marrecos, mas o moço era bom de conversa. Dizia que o lugar tinha água corrente, muita terra desocupada, que os marrecos iam mudar sua vida, etc, etc. No dia seguinte, ele chegou num caminhão e despejou um monte de marrecos no meu quintal”.
O chato não pediu um tostão sequer para Dona Maria. Ele devia era estar cansado de ouvir tanto “qüeim qüeim” no seu ouvido. Dona Maria nada pôde fazer senão aceitar os pobres marrecos. Mas logo sua paciência já estava esgotada. “Os bichos eram barulhentos. Faziam uma sujeira danada”. Um dia alguém a contou sobre um concurso que iria eleger o melhor tira-gosto durante o Festival da Cachaça em Sabará. Era a chance de Dona Maria de se livrar dos marrecos. Sem pensar duas vezes, se inscreveu no concurso. Agora bastava ir abater cada um dos marrecos.
Alegremente, foi colocando seus pedaços dentro de panelas enormes. De acompanhamento, ela arrancou um punhado de folhas que tinha em demasia no quintal. “Apanhei o ora pro nobis, cortei como couve, e refoguei. O segredo é ter ao lado uma água fervente. Depois de rápida refogada, jogue a água fervendo. É assim que se tira a baba. Em seguida, foi só misturar com o marreco e deixar ferver mais um pouco”. Não deu outra. O chato dos marrecos estava certo: eles acabaram mudando a vida de Dona Maria. Ela ganhou o prêmio de melhor tira-gosto e espalhou o sabor do ora pro nobis pela região. Muitos vinham de fora para experimentar seu tira-gosto campeão.
Mas Dona Maria não queria mais saber de fazer só o marreco com ora pro nobis. Acabou inventando outras receitas usando a planta como acompanhamento. Assim, o ora pro nobis ganhou seu merecido respeito e seu sabor foi divulgado para fora do distrito.
O Festival do Ora Pro Nobis foi criado em 1997 pelo prefeito Wander Borges, um fã das receitas com ora pro nobis de Dona Maria Fonseca. Dezenas de voluntários fazem o trabalho nas vésperas do festival para limpar a tonelada de folhas espalhadas em mesas ajuntadas num ginásio colegial. A festa acontece numa quadra poliesportiva e conta com várias barracas. No festival, encontram-se as mais diversas combinações com a folha: lingüiça, frango, marreco, costelinha, torresmo, arroz, risoto, angu, carne moída, bacalhau, camarão, tortas, etc.

