O mel de Santa Bárbara

Na entrada da cidade, uma abelha sorridente desenhada num outdoor dá as boas vindas a quem chega em Santa Bárbara, a terra do mel. Antônio Carlos Rodrigues, o Cacai, é o presidente da cooperativa de Santa Bárbara, fundada em 2001 e que reúne hoje cinquenta cooperados. Lá o mel é armazenado em baldes de vinte e cinco quilos. Num canto da sala, parte de um lote de quatro toneladas está reservada para ser exportada para Alemanha. Cacai conta que enquanto a população brasileira prefere o mel de cor mais clara, portanto de gosto mais suave e com menos nutrientes, os alemães gostam do mel escuro. Além da Alemanha, o mel também é exportado para o Japão.

Para Cacai, o mais fascinante sobre a produção do mel não é a aceitação do produto no exterior, e sim a vida das abelhas. “Já ouviu falar do vôo nupcial? E da luta entre as rainhas na colméia?”.

Em cada colméia, há uma única abelha rainha apesar de milhares de operárias e centenas de zangões. Enquanto a função das operárias é produzir o mel e trazer o pólen – o alimento das abelhas – para a colméia, a abelha rainha tem função exclusivamente reprodutora. Já o zangão é o encarregado de fertilizar as jovens rainhas.

Os zangões são criados em alvéolos um pouco maiores que os utilizados pelas operárias e nascem de ovos postos pelas princesas – rainhas ainda não fertilizadas, virgens – capazes apenas de pôr ovos de zangões. No outono, quando a produção de mel termina, as operárias deixam os pobres zangões morrerem de fome, pois não necessitam de suas funções fertilizadoras, e também porque acabariam comendo grande parte do mel armazenado. Mas tamanha crueldade é pouca se comparada ao sofrimento que passam durante o vôo nupcial das princesas.

Cacai conta que “quando a jovem rainha emerge de seu alvéolo especial, ela come bastante mel para ficar forte. Isto porque se duas rainhas nascem ao mesmo tempo, devem lutar até a morte. Ou ainda, a princesa pode vir a ter que lutar com a velha rainha caso esta opte em não abandonar a colônia. Depois de matar as rivais, a princesa voa para fora da colméia para ser fertilizada por um ou vários zangões. Este sente o cheiro da virgem e, mesmo estando há quilômetros de distância, fica excitado.

A princesa fica voando de um lado para outro, só esperando os zangões se aproximarem. Quando um deles se aproxima, ela facilita a penetração, apenas esperando a ejaculação do macho. Assim que o coitado goza, ela trava o pênis na vagina, e o arranca de seu corpo. O zangão nada pode fazer senão agonizar até a morte. A jovem rainha pode vir a repetir o ato com outros doze, treze zangões, e somente ao perceber que sua espermateca está cheia de sêmen, ela retorna a colméia para ovular”.

Renato e a Coopermel

Quando Renato decidiu ser apicultor, Santa Bárbara não comercializava sequer um pote de mel. Após ter assistido uma palestra sobre os benefícios da produção de mel em Belo Horizonte, Renato decidiu voltar para sua terra natal e se dedicar a essa atividade.

Durante três anos ele foi o único apicultor da cidade. Depois, vieram outros. Surgiu até uma associação entre os apicultores. No inicio, os associados conversavam mais sobre o medo de levarem ferroadas do que sobre assuntos de interesse político ou econômico. Com o passar do tempo, a prefeitura percebeu a seriedade do trabalho dos apicultores e começou a apóia-los. Foi questão de tempo até Santa Bárbara ganhar importância mundial na produção de mel. Hoje, a empresa Coopermel, de Renato, está entre as maiores da América Latina.

Renato, que já foi picado milhares de vezes por abelhas, conta o caso de dois empresários mortos em 2004 quando passeavam pelo Caraça: “eles não deveriam ter pulado dentro de água fria depois de terem sido atacados. Quando alguém é ferroado, a tendência é baixar a pressão. Pulando na água gelada, pode ter ocorrido hipotermia. No entanto, se uma pessoa é alérgica ao veneno, basta uma ferroada e ela pode morrer. Mas isto é raro; a maioria das pessoas sobrevive mesmo quando atacada por várias abelhas.

Agora, nunca pule na água, pois o enxame vai ficar ali mesmo, esperando a pessoa sair. As abelhas costumam atacar perto da colméia. O melhor a ser feito é correr o mais rápido possível para longe do local, se distanciando da colméia e sem abanar, gritar, fazer muitos gestos. Na maioria das vezes, é a própria pessoa que acaba injetando o veneno no corpo ao tentar retirar o ferrão. Quando uma abelha dá uma ferroada, ela libera um hormônio capaz de atrair outras abelhas”. Renato recomenda que o ferrão seja puxado com uma pinça ou unha cumprida.

O mel chega à fábrica de Renato em galões provenientes de produtores da região. Textura, cor e consistência são avaliadas. Em seguida, se necessário, o mel é descristalizado em estufa a 40 graus, homogeneizado e pasteurizado a 70 graus Celsius para eliminar eventuais bactérias. Após ser decantado por 48 horas, é envasado em pote previamente esterilizado, rotulado e plastificado para seguir viagem até ao consumidor.

O mel

Para produzir uma colher de mel, a abelha suga o néctar de aproximadamente 500 flores. Já para produzir um único quilo, ela terá percorrido seis vezes a circunferência da Terra. A cor do mel depende das espécies de flores de onde foi retirado o néctar. O silvestre nada mais é do que uma combinação do néctar de várias flores. Quanto mais claro o mel, mais suave será seu gosto e menor quantidade de sais minerais na sua composição. Durante o inverno, pode ocorrer a formação de cristais no mel devido às baixas temperaturas, bastando aquecê-lo em banho-maria para voltar a seu estado normal.

O mel de jataí

O mel de jataí é o favorito de chefes de cozinha por possuir gosto mais suave que os demais. Seu preço é um bem mais caro que o mel tradicional. O jataí é uma abelha pequenina que produz um mel de cor clara, fino e ralo. Por ser mais ácido que o mel usual, tem maior facilidade de fermentar, devendo ser guardado em geladeira.

Geléia real

A geléia real é uma substância líquida de cor branca e sabor ácido que serve de alimento para as larvas se transformarem em rainhas. É produzida pelas glândulas de abelhas operárias de 9 a 12 dias.

A abelha rainha se alimenta exclusivamente de geléia real. Enquanto uma abelha operária, que não tem esse benefício, vive entre 35 e 55 dias, a rainha pode viver até sete anos. Por isso, lendas contam que seres humanos que se alimentam constantemente de geléia real conseguem prolongar a vida. O preço para confirmar tal lenda não é barato. O quilo da geléia real oscila entre 97 e 100 dólares.

A técnica usada na produção de geléia real é fornecer vários casulos artificiais, colocar uma larva de até três dias, e esperar pelas operárias encherem as cápsulas de geléia real. Três dias depois, deve-se recolher a geléia real, separando-a da larva e do casulo.