As damas da cozinha mineira

Dona Nelsa e Dona Lucinha sabem o quanto é importante manter viva as tradições e os costumes de um povo. Em meio a um mundo globalizado, com a crescente pasteurização do setor alimentício, as duas damas da cozinha mineira lutam para preservar a comunhão ao redor da mesa. Em seus restaurantes, respectivamente Xapuri e Dona Lucinha, as refeições são feitas sem pressa. A ambientação interiorana e a comida saborosa e honesta remetem os clientes a uma época onde reinava o sossego e a tranqüilidade.

O Xapuri de Dona Nelsa

Sabe aqueles restaurantes onde a comida é tão boa, mas tão boa que quando a refeição chega ao fim tudo que a gente quer é uma rede. Pois é, o Xapuri é tão perfeito que até rede ele tem.

Localizado fora da região central de Belo Horizonte, distante da muvuca urbana, o Xapuri possui ambiente rústico que lembra o de sítios no interior do estado. O portão da entrada é igual ao de fazendas. Ao entrar no salão, vê-se um fogão à lenha aquecendo várias panelas. As mesas são de madeira, e os bancos desses compridos e sem encostos. É neste clima roceiro, em meio a bananeiras e teto de sapê, entre goles de cachaças e mordiscadas em costelinhas sequinhas, que Dona Nelsa recebe seus clientes.

A sempre sorridente Nelsa Trombino nasceu em Cubatão, no estado de São Paulo. Após o casamento, mudou para a fazenda do sogro, no interior de Minas, onde vivenciou as tradições mineiras e aprendeu sobre culinária. Anos mais tarde, Dona Nelsa foi morar na região da Pampulha, em Belo Horizonte. Nesta época, ela confessa que seu maior prazer era cozinhar para amigos e familiares nos fins de semana. Até que certo dia, Fernanda, sua filha mais velha, a convenceu a cobrar pelas refeições servidas. Pouco tempo depois, mais uma sugestão: inaugurar um restaurante no terreno ao lado da casa onde moravam. Dona Nelsa novamente acatou a idéia da filha; nascendo assim o Xapuri.

Para provar as deliciosas receitas de Dona Nelsa, o ideal é ir ao Xapuri em grupo e sem relógio. Com isso, é possível experimentar inúmeros tira-gostos, um de cada vez, intercalando-os com caipirinhas. Para começo de conversa, há a lingüiça caseira servida na chapa com cebola e pimentão. Como acompanhamento, o garçom recomenda uma porção de pão de queijo. Em seguida, pode-se optar por bolinhos de mandioca recheados com mussarela, costelinha frita, ou polpetas de ricota em molho ao sugo. Ao cair do dia, a mesa deve chegar ao consenso na hora de escolher o pedido principal. Conforme ditam as regras da culinária mineira, os pratos são fartos e satisfazem até quatro pessoas. Ao estudar o cardápio, percebe-se haver tanto pratos clássicos da culinária mineira – canjiquinha com costelinha, lombo com tutu de feijão, frango ao molho pardo -, quanto receitas diferenciadas – costeleta ao licor de pequi, carré ao melaço, rocambole de filé ao molho de amendoim. Prestativo, o garçom destaca o Frango Preguento do Bento – servido ensopado em caldo espesso e untuoso -, a Moranga com Carne Seca e Requeijão, e o Picadinho de Filé com Ora-Pro-Nóbis. Seja qual for o pedido, este é guarnecido de inúmeros acompanhamentos servidos em panelinhas de alumínio: arroz, feijão, angu, creme de milho, chuchu, quiabo. Além destas iguarias, é recomendado provar a couve refogada e a farofa de jiló, ambas servidas em frigideira de ferro.

Após saborear o prato principal, é hora de esticar as pernas e caminhar até a fabriqueta de doces do Xapuri, onde se encontra maravilhas da doçaria mineira como: doce de figo, doce de mamão, de limão, de laranja, de banana, de cidra, ambrosia, doce de leite, arroz doce, quindim, mingau de milho verde, cocada mole, cocada de maracujá, pé de moleque. Antes de ir embora, não deixe de dar uma passada na mesa do café. Ali, Dona Nelsa oferece uma cortesia a seus clientes: cafezinho de coador com rapadura junto de bombocado.

O Restaurante de Dona Lucinha

Se a ambientação do Xapuri lembra a de uma fazenda, a do restaurante Dona Lucinha remete aos sobrados coloniais de cidades históricas. Seu interior é decorado com artefatos usados por tropeiros, utensílios antigos, e mobiliário de época. O teto é forrado com esteira de palha, a parede da entrada é de tijolos expostos, e as portas são emolduradas com madeira escura. Por todo canto há detalhes que clamam pela nostalgia: canecas esmaltadas, sinos de prata, escumadeiras de cobre, e uma galinha em arame para guardar ovos caipiras.

Maria Lúcia Clementino Nunes, a Dona Lucinha, é natural do Serro, no Vale do Jequitinhonha. Com mais de 300 anos de fundação, a cidade mineira é conhecida pela qualidade de seu queijo e pelo talento de suas quitandeiras. Em meio a esta riqueza cultural, Dona Lucinha aprendeu o ofício de cozinheira com maestria. Ao longo de sua vida, batalhou para mostrar o quão importante é o papel da gastronomia frente ao crescimento de uma sociedade, seja como professora, catequista, ou vereadora. Em meados da década de 90, com o objetivo de divulgar os costumes e as tradições da culinária mineira, inaugurou em Belo Horizonte o restaurante que leva seu nome.

Através do serviço de bufê, os clientes podem experimentar inúmeras iguarias da gastronomia mineira. Para abrir o apetite, há lingüiça, torresmo e pão de queijo. Em seguida, pode-se pedir uma cachaça artesanal, ou retornar ao bufê para um caldo de feijão, canjiquinha com costelinha e couve, rabada com agrião, ou vaca atolada. Experimentar de tudo e depois repetir aquilo que mais apeteceu. A degustação das receitas de Minas tem continuidade com as opções de lombo com tutu ou feijão tropeiro, o frango com quiabo ou ao molho pardo, e abóbora com carne seca desfiada. Após o repeteco dos pratos que mais o agradou, o cliente inicia o deguste das sobremesas. Em uma mesa no canto do salão, há ambrosia, arroz doce, doce de leite, doce de cidra ralado, doce de laranja da terra, de abóbora com coco, de mamão com rapadura, de goiaba, de figo. Antes de pensar em ir embora, deve-se provar os licores caseiros feitos por Dona Lucinha: jabuticaba, pequi, jenipapo, anis, figo, dentre outros. Pronto, o deleite está completo.

O Armazém Dona Lucinha

Em frente ao restaurante Dona Lucinha, está o Armazém Dona Lucinha, que oferece quitutes da quitanda mineira. Em sua saborosa vitrine, há bolinhos de chuva, broa e bolo de fubá, rabanada, bolo de cenoura com chocolate, curau, pé-de-moleque, biscoito de goma com erva doce, pão de queijo com requeijão escuro, e outras delícias comuns às fazendas do interior de Minas. Para beber, há queimadinha – feito com açúcar queimado e leite – e chá gelado de capim cidreira.

Armazém Dona Lucinha
Av. do Contorno, 6283 / lj. 06.
Bairro: São Pedro
Tel. (31) 3281-9526
Belo Horizonte – MG

Onde Comer

Armazém Dona Lucinha
Av. do Contorno, 6286 loja 06 – São Pedro
(31) 3281-9526
Xapuri
Rua Mandacaru, 260 - Pampulha
(31) 3496-6198