Redutos da boêmia Belo-Horizontina
Além de reconhecida nacionalmente como a capital dos bares e dos botecos, Belo Horizonte – ou simplesmente Beagá – é famosa por ser o berço de artistas consagrados. Em locais despretensiosos e boêmios, músicos e escritores se reuniam nas altas horas da madrugada para bater papo ou trocar idéias. Enquanto o restaurante Bolão, no tranquilo bairro de Santa Teresa, serviu como ponto de encontro dos garotos do Clube da Esquina, do Sepultura, e do Skank; a Cantina do Lucas, dentro do Edifício Maletta, no centro da cidade, era o preterido de Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Helio Pelegrino, Otto Lara Resende, e Roberto Drummond.
O Restaurante Bolão
Quem percorre as ruas de Santa Tereza tem a sensação de estar numa cidade do interior. Há crianças correndo de um lado para o outro, senhores lendo jornal no banco da praça, e casais namorando no coreto. No centro do bairro está a Igreja Matriz e a Praça Duque de Caxias. Ao lado desta, outro símbolo da vizinhança: o restaurante Bolão.
Inaugurado em 1961, por José da Rocha Andrade e sua esposa Maria dos Passos Rocha, o restaurante Bolão é hoje administrado pelos nove filhos do casal. O nome do estabelecimento é uma referência à forma rotunda de Antônio dos Passos Rocha, um dos proprietários da casa.
O restaurante Bolão ganhou fama na capital mineira por vários motivos. Um deles é sua peculiar decoração. A casa possui dezenas de discos de ouro e de platina de músicos belo-horizontinos – uma justa homenagem dos artistas à casa que o acolheram em início de carreira -, além da coleção de relógios de parede.
Outro motivo que o diferencia dos demais estabelecimentos é por estar sempre aberto. Somente entre seis da tarde de domingo e seis da manha de segunda, o local se encontra fechado. Reduto democrático, o Bolão é freqüentado por representantes de diversas classes sociais: estudantes, pedreiros, taxistas, professores, médicos, e advogados. Todos adoram ir ao local, principalmente de madrugada, para saborear o carro-chefe da casa: o espaguete à bolonhesa. Além deste, outro querido dos belo-horizontinos é o Rochedão com bife de filé, que consiste num PF de arroz, feijão, ovo, espaguete ou fritas, e bife.
Cantina do Lucas
Inaugurada em 1962, a Cantina do Lucas está localizada dentro de um conhecido prédio de Belo Horizonte, o Edifício Maletta. Na década de 60, quando os clientes iam ao restaurante para almoçar, aproveitavam a visita para circular pelo pomposo lobby do prédio e passear na primeira escada rolante de Minas Gerais.
Tombada pelo Patrimônio Histórico, a Cantina do Lucas se assemelha às cantinas italianas de antigamente; com paredes pintadas de verde escuro, toalhas xadrez vermelhas sobre as mesas, e garrafas de vinho pendendo do teto. Outra característica do local é o bom atendimento prestado pelos garçons. Muitos trabalham no restaurante há anos. Os fregueses os conhecem pelo nome e vice-versa. Em 2003 todos lamentaram a morte de Seu Olímpio, garçom que trabalhara na casa desde sua inauguração. Sua memória é mantida viva em um dos pratos do cardápio: o Filé Olímpio, feito com filé fatiado, molho da casa, arroz com cúrcuma e champignons, batata palha e brócolis.
Até o cardápio da Cantina do Lucas remete ao passado: pesadão, com capa escura estofada, e páginas plastificadas. Dentre os destaques, há receitas tradicionalíssimas como estrogonofe e peixe à belle meunière, além de pratos com nomes peculiares como o “peito à Maryland” – peito de frango à milanesa guarnecido com bolinhos de batata e abacaxi em rodelas – e o “peito à surprise” – peito de frango recheado com presunto e mussarela, acompanhado de banana à milanesa e ovos fritos. Há ainda filés à cubana, à francesa, à brasileira, e à parmigiana, além de maionese de frango, lasanha verde com presunto, canja com legumes, e creme de aspargos. Todas as opções são para duas pessoas e o serviço é à francesa, ou seja, os garçons dividem os pratos na frente do cliente. Antes de pedir a conta, pode-se saborear um pudim de leite junto de cafezinho de coador.

