O saboroso pitu

O relógio marca seis e vinte da manhã. É neste horário, com a maré ainda baixa, que Chiquinho costuma sair para passeios em sua canoa motorizada – ou voadeira, o nome local – junto daqueles que desejam acompanhar a cata dos pitus. O enorme camarão de água doce, comum nos igarapés ao redor de Macapá, é a principal a fonte de renda de muitos habitantes da região.

Chiquinho é pescador e marido de Flora, dona de um ótimo restaurante que fica às margens do igarapé Fortaleza, na cidade de Santana, a 15 km da capital. Ele combinou que o local de encontro fosse o restaurante de sua esposa. Na hora marcada, a voadeira já estava ligada e abastecida com os apetrechos para a cata do pitu: armadilhas, baldes, caixas de isopor, cordas, iscas e colete salva-vidas. Com tudo pronto, basta entrar na embarcação e partir.

A voadeira corre contra a correnteza. Rapidamente, o restaurante de Flora fica para trás. Às margens do igarapé, crianças acenam para Chiquinho. Elas esperam pelo barco que irá levá-las a escola. Mais adiante, dois amigos batem papo. Um deles está dentro de uma canoa, o outro em cima de um cais lavando seu tênis. Chiquinho diminui a velocidade da voadeira para que o barulho do motor não atrapalhe um companheiro que pesca num canto do rio. Com o pescador já atrás, a voadeira aumenta de velocidade mais uma vez.

Como num passeio em parque temático, as atrações às margens do rio pipocam uma atrás da outra: uma partida de futebol jogada na lama – o futelama -, mães e suas bacias de roupas para lavar, meninos em palmeiras apanhando açaí, crianças na água aproveitando o dia de sol. A comunidade ao longo do igarapé é formada de gente simples. As casas com seus varais repletos de calças e camisetas coloridas são humildes. E a sensação é de uma convivência harmoniosa entre todos, num ambiente de comunhão e cumplicidade.

À cata do pitu

Chiquinho diminui o fluxo de gasolina do motor. Cordas azuis amarradas em galhos são vistas pela primeira vez. É este o sinal de que ali, debaixo d’água, estão as armadilhas usadas na captura dos pitus.

É somente durante a pacuema – a vazante da maré – que a captura do pitu pode ser feita. Nesse período, as armadilhas são checadas e reabastecidas com novas iscas. O nome da armadilha usada na captura do pitu é matapi. Feito com fibras de palmeiras, o matapi é parecido com uma gaiola de formato cilíndrico com cerca de 40 cm de comprimento e 25 cm de diâmetro. Nas extremidades, ele apresenta uma espécie de funil que facilita a entrada dos camarões e dificulta sua saída. No corpo do instrumento, uma janela é usada para colocar a isca e retirar os pitus capturados.

A isca usada para atrair os camarões de água doce é conhecida pelo nome de ponheca. A mais usada é o farelo de babaçu umedecido. A isca é enrolada em folhas como se fosse uma trouxinha e, depois, furada com espinhos. A ponheca é então amarrada dentro do matapi que é devolvido a água.

O local ideal para colocar os matapis são as partes do rio de menor correnteza. Ali eles irão permanecer até a próxima vazante, quando devem ser checados faça chuva ou faça sol. Dizem que aqueles que se esquecem de checar o matapi na próxima vazante serão condenados a períodos de azar. Os pitus são sensíveis ao calor e não devem ficar expostos ao sol por muito tempo. É ideal que sejam comercializados ainda vivos. Por isso, ao tirá-los do matapi é sempre bom ter um balde ou caixa de isopor com água e sob a sombra da canoa.

Chiquinho está feliz. Ele conseguiu alguns belos pitus e deve levá-los imediatamente para o restaurante de sua esposa. É quase meio dia e Flora o espera para preparar o almoço. Ao atracar, Chiquinho já vai entregando os pitus que vão logo para a cozinha.

Os passos de Flora até o sucesso

Flora, baixinha e sorridente, está sempre para lá e para cá. Acompanha tudo de perto em seu restaurante. Mas a vida já foi difícil para Floraci Panheco Dias. No início de 1994, ela estava no segundo ano de seu casamento com Chiquinho. Com uma filha no colo e grávida de outra, atravessava dificuldades financeiras. Ao invés de ficar parada, conseguiu um pequeno fogareiro e foi para as margens da Rodovia Salvador Diniz vender peixe frito para as pessoas que por ali passavam.

Mesmo nessa época, Flora já sabia o quanto a qualidade do ingrediente era importante. Por isso, passou a acordar de madrugada para conseguir escolher os melhores peixes que chegavam ao porto. Não demorou muito até todos perceberem que o peixe frito da Flora era o melhor do igarapé. Flora passou a ter clientela fiel e a aceitar encomendas. Decidiu então dar mais um passo para o crescimento do negócio: rifou sua geladeira e com a renda obtida construiu um espaço coberto com duas mesas. Além disso, passou a preparar pitu. Algum tempo depois, teve início a construção de uma ponte sobre o igarapé. Flora encarou a obra como uma ótima oportunidade de fornecer refeições aos trabalhadores. Foi este o último passo antes de conseguiu realizar seu sonho: construir seu restaurante.

Flora coloca sobre a mesa uma travessa cheia de pitus feitos no bafo. Enormes e vermelhos, a carne do crustáceo está no ponto ideal, tenra, de desmanchar na boca. Para melhorar o gosto, Flora pede tucupi, farofa e molho de pimenta. Chiquinho aprova. Instantes depois, Flora lista algumas das opções do cardápio: açaí com charque ou peixe frito e farinha de tapioca; filhote ao molho de taperebá, leite de castanha ou cozido no tucupi; ou caldeirada de pitu.

Depois de comer a deliciosa comida de Flora é fácil entender o porquê de seu sucesso. Hoje, o restaurante tem capacidade para duzentas pessoas. Na cozinha, há oito funcionárias fixas e algumas diaristas no final de semana. Em Macapá e arredores, todos já sabem que o restaurante da Flora é um programa imperdível para qualquer dia, faça chuva ou faça sol.

Onde Comer

Restaurante da Flora
Rodovia Salvador Diniz, 1370 A. - Igarapé de Fortaleza
(96) 3283-2858