O rei dos mares
Se o leão é o rei da selva, o beijupirá é o rei dos mares. Esta nobre espécie de peixe habita as águas profundas do oceano e tem o hábito de não nadar em cardumes. Uma lenda indígena reza que aquele que capturar um beijupirá deve hastear uma bandeira branca, indicando a honra de tê-lo pescado. Deve também, ao retornar ao continente, saboreá-lo junto de amigos para dividir a sorte da pescaria. Além de ser o rei dos mares, o beijupirá também batiza o mais tradicional restaurante de Porto de Galinhas.
O charmoso Beijupirá existe desde meados dos anos 90 em uma das poucas ruelas que constituem a pequenina vila de Porto de Galinhas. Apesar da hospedagem na região ser geralmente com diária completa (ou seja, almoço e jantar incluso na diária), vale a pena se abdicar de uma das refeições para conhecer o restaurante. Certamente a ida ao estabelecimento será um dos momentos mais agradáveis da viagem.
Quem entra no local encontra um ambiente rústico e bem cuidado. Por todos os cantos há pequenos detalhes que colaboram para sua singularidade. Há cortinas feitas com conchas do mar, toalhas pintadas a mão, panos rendados pendendo do teto, esteiras de palhas cobrindo as janelas e até talheres cimentados no chão. As paredes dos diversos salões são pintadas com cores claras e ornadas com quadros coloridos. À noite, a casa ganha ares românticos. Casais em lua-de-mel ou celebrando aniversários de casamento são agraciados com uma iluminação intimista de velas acesas, lamparinas e mini-lâmpadas.
Ao abrir o cardápio o cliente encontra divertidos desenhos de bichinhos. Mais que mera ilustração, o trabalho é fruto do talento artístico da proprietária da casa, Adriana Didier. Ao lado de simpáticas galinhas de bico fino, olhos grandes e jeitão desconjuntado, desfilam receitas com nomes engraçados que combinam majoritariamente frutos-do-mar com molho de frutas regionais. Como entrada, ou “frutiscos”, há: os Mangueboys – crustáceos ensopados no coco –; as Trouxas – pastéis de aratu, charque, camarão, ou caranguejo, servido com molho de caju -; o Desengonçado – carne de sol, farinha, e feijão verde -; o Oião – enrolado de bacon com passa de caju e queijo -; e o Piradinho – caldinho de peixe.
A criatividade do cardápio continua com os pratos principais que mesclam especiarias – como curry e cardamomo – a produtos locais – mel de engenho, leite de coco, feijão verde, e outros. Um garçom esclarece que a casa utiliza exclusivamente o filé de beijupirá nos pratos de peixes. Dentre os “frutos da terra”, há: a Galinha Trololó – peito de galinha, bacon, banana, passas e mel de caju, servido com arroz branco, feijão verde e alho-porró com amendoim -; e o Picadinho Arretado – pedaços de carne de sol puxados na manteiga ao vinho, com arroz branco, farofa de ovo, banana, e feijão verde. Na categoria “Frutos do Mar”, existem opções como: o Beijucanela – peixe perfumado com canela e cardamomo, banana empanada no coco ralado e flambada, arroz de curry, e molho de tamarindo -; e o Beijupitanga – peixe grelhado com arroz de castanhas de caju, batatas, e molho de pitanga. Existem ainda o Camarulu – camarões com mel de engenho e arroz de maracujá -, o Lagostanga – cauda de lagosta sauteada na manteiga, fatias de manga grelhada, e arroz de aipo -, e o Forró de Polvo – polvo cozido no leite de coco e curry, com feijão verde e bacon, farofa de cuscuz e arroz branco. Os destaques do restaurante seguem com as sobremesas: Beijubocado – bombocado, sorvete de café, e calda de chocolate -, Beijucasado – doce de jaca com sorvete de graviola -, e o Cangaceiro – queijo manteiga na chapa, sorvete de banana, açúcar e canela. Ao fim da refeição de sabores tão marcantes fica a certeza de que o Beijupirá é um ótimo representante da tropicalidade brasileira.

