Folclórico restaurante

Almoçar no restaurante da Mira é um dos mais divertidos programas gastronômicos de Recife. Não há quem não se alegre com o pitoresco Edmílson, faz-tudo da casa e filho da proprietária Mira. Além de receber os clientes, anotar os pedidos, trazer os pratos à mesa e fechar a conta, ele entretém a todos com uma fala rápida recheada por palavras incomuns. Mas o peculiar vocabulário do atendente não é a única atração do lugar. O restaurante também é famoso por oferecer a autêntica culinária regional do Nordeste.

O folclórico estabelecimento funciona desde 1978 no bairro de Casa Amarela, longe da muvuca turística de Boa Viagem e arredores. Instalado em rua residencial, o restaurante não possui placa com seu nome. Mas basta perguntar a qualquer passante onde é o restaurante da Mira para ele apontar uma simples casinha revestida com azulejos claros.

O acesso ao restaurante se dá por um estreito corredor onde está o mascote da casa: um papagaio. Serelepe, a ave serve como campainha, anunciando a presença de clientes com um “brrr… louro, louro.”. O visitante é então cumprimentado pelo célebre Edmílson, que o acompanha até a mesa enquanto mostra os cômodos da casa. O salão dos fundos, com dezenas de fotos de clientes pregadas nas paredes, é o “Roll ófi faime”. O passeio continua pelo “shit ou pipi rause”, o banheiro; pelo “centro cirúrgico”, a cozinha onde Dona Mira pessoalmente prepara os pratos; pelo “cineclube”, uma saleta com um velho televisor 14 polegadas; a “UTI”, quarto com beliches e a “sala vip”, um cômodo com vista para a rua. Caso o cliente opte em ficar na arejada varanda, esta, conta Edmilson, está protegida de maus-olhados por uma carranca e galhos de arruda. Depois de acomodar o freguês, o faz-tudo oferece uma “loura glacial”, ou seja, uma cerveja gelada, para “refrescar a serpentina”.

Minutos mais tarde Edmílson volta à mesa com uma garrafa térmica e duas “xicrinhas” em uma bandeja. “Café com leite?”, pergunta já servindo a bebida. O tal pingado é na verdade um delicioso caldinho de feijão. Ao notar o rosto de satisfação do cliente, que pede um bis do café com leite, Edmílson sorri e deixa a garrafa na mesa.

Ao contrário do clima alegre e descontraído vigente no salão, na cozinha a coisa é séria. Aldemira Pereira Lima, a Dona Mira, trata o preparo de suas aclamadas receitas com destreza e sobriedade. A experiente senhora sabe que o sucesso do restaurante também se deve à comida caseira feita sempre com esmero e sabor.

Para fazer o pedido, o cliente deve chamar o “homem-cardápio”, ou seja, Edmílson. O filho de Dona Mira recomenda iniciar a “prosopopéia gastronômica” com um “feijão ortodoxo” (feijão branco com dobradinha) ou uma “porçãozinha de sensibilidade bovina” (rabada). Dentre os pratos principais pode-se optar entre “bode seco (assado) ou molhado (ensopado)”, além de sarapatel com farinha de mandioca, galinha à cabidela com feijão preto e arroz, buchada de bode e língua de boi. Após o almoço Edmílson oferece uma “simbiose glicosada”, um prato com pequenas porções de doces de banana, goiaba, mamão e laranja. Ao término da sobremesa, fica uma dúvida: o sorriso no rosto do cliente deve-se a animação contagiante de Edimílson, às delícias regionais de Dona Mira ou a uma mistura de ambos?

Onde Comer

Restaurante da Mira
Avenida Dr. Eurico Chaves, 916 - Casa Amarela
(81) 3268-6241