Viagem ao passado
Para viajar ao passado não é preciso inventar uma máquina do tempo. Quem quiser vivenciar o requinte e a sofisticação de outrora basta entrar no Leite. Fundado em 1882, o restaurante é um dos mais antigos do país. A casa é também uma das mais tradicionais de Recife, considerada por muitos um patrimônio social e cultural da cidade.
Antes de se instalar em seu atual endereço, o Leite funcionou em um modesto quiosque às margens do rio Capibaribe. Fundado pelo português Armando Manoel Leite de França (daí a origem do nome Leite), o restaurante não demorou muito para conquistar uma clientela fiel e cativa. Com o sucesso do empreendimento, o senhor Manoel Leite, após seus doze anos iniciais na Rua do Sol, mudou o estabelecimento para um portentoso casarão na Praça Joaquim Nabuco. Em seguida, comprou o que havia de melhor na época para compor as mesas: louças inglesas, taças e copos de cristal, talheres e baixelas de prata. Contratou garçons de primeira linha e cozinheiros que soubessem preparar as mais finas iguarias com os mais nobres ingredientes. Não deu outra: logo após a inauguração no novo ponto, a casa tornou-se o lugar preferido das classes mais endinheiradas da capital pernambucana.
Atualmente o Leite é administrado por outro português, o senhor Armênio Ferreira Diogo. Ele conta que se no passado o local foi freqüentado por clientes ilustres como Assis Chateaubriand, Juscelino Kubitschek, Jean Paul Sartre, Orson Wells e a Rainha Elisabeth II. Nos dias de hoje a casa continua recebendo visitas de celebridades, intelectuais, artistas, políticos e empresários. Apesar de ter capacidade para receber até 200 pessoas, é recomendável a reserva de mesa com antecedência. Aberto somente para almoço, de domingo à sexta-feira, os assentos da casa são bastante disputados nos horários de pico.
Ao chegar ao restaurante, o visitante encontra uma fachada sóbria pintada de verde e branco e paredes revestidas por azulejos portugueses. NoTsalão principal, há uma inusitada armadura medieval junto à porta de entrada. Sisuda e formal, a ambientação da casa possui piso de granito, aparadouros de mármore e cadeiras de jacarandá. As paredes são cobertas por espelhos bisotados, as colunas são revestidas de madeira escura e as cortinas são de veludo escuro.
Depois de levar o cliente à mesa, o garçom oferece o cardápio da casa. Ao fundo, um músico toca repertório de clássicos em piano de cauda. Ao ler o menu, percebe-se o quão tradicional é o Leite: ali o filé ainda é conhecido como steak. Apesar da forte influência portuguesa notada em receitas de bacalhau, há muitos pratos clássicos, como steak au poivre, tornedor a Chateaubriand, e peixe à belle meunière. O atencioso garçom recomenda uma das especialidades da casa como entrada: bolinhos de bacalhau. Como prato principal, o restaurante oferece um extenso cardápio com dezenas de opções para todos os gostos. Há filé com funghi, camarões flambados com conhaque, vieiras gratinadas, mariscadas, cordeiro ensopado, além da especialidade da casa: bacalhau à moda do chef – uma posta grelhada em bastante azeite com cebola e alho e guarnecida com batatas cozidas, azeitonas pretas e pimentões coloridos.
Nem só o refinamento e o tradicionalismo fazem a fama do Leite. O restaurante é também conhecido por servir uma das melhores receitas de “cartola” do país. A sobremesa é uma das iguarias símbolo de Pernambuco e consiste em fatias de banana-prata salteadas na manteiga, coberta com queijo manteiga (também conhecido como queijo do sertão), e polvilhada com camada generosa de açúcar e canela.
Ao fim da refeição, para brindar este restaurante que é um patrimônio recifense, nada mais adequado que um cálice de vinho do Porto.

