A capital do meio do mundo

O pacato Charles é daquelas pessoas que, numa primeira impressão, parecem ser fechadas e caladonas. Mas com o convívio diário, revela-se uma pessoa simpática, prestativa e atenciosa. Se ele prefere ouvir a falar, é por acreditar que assim estará aprendendo mais.

Dono de um dos melhores restaurantes de Macapá, O Estaleiro, Charles tem um carinho especial pela cidade aonde mora. Apesar de ter nascido fora do estado, como a maioria das pessoas, é ali que se sente em casa. Nas ruas da cidade é cumprimentado por muitos, de peixeiros a senhoras, clientes de seu restaurante. Sua rotina diária inclui uma lista de compras vinda da cozinha de seu restaurante.

No trajeto até o mercado, Charles conta que, em Macapá, só se chega de barco ou avião. Não há estradas que liguem o Amapá a outros estados. A capital, a única banhada pelas águas do Amazonas, tem aproximadamente 300 mil habitantes. Por ser cortada pela linha imaginária do Equador, é conhecida como “a capital do meio do mundo”. Sua história remete aos tempos coloniais, época em que era disputada por portugueses, espanhóis, franceses e holandeses. Hoje, após a transformação do território do Amapá em estado federativo em 1988, a capital cresce em ritmo acelerado Apesar da maioria dos habitantes possuírem empregos no setor público, começam a surgir os primeiros shoppings centers e até cinemas.

Ao passar pela Avenida Beira Rio, que margeia o Amazonas, Charles diz ser ali o local onde os jovens se encontram para ouvir música dentro do carro ou bater papo sentado no capô. De noite, o local fica empapuçado de gente e barraquinhas que vendem batatas fritas, côco verde, cachorro quente e refrigerantes.

O Trapiche Eliezer Levy

O trapiche Eliezer Levy, construído na década de 40, era o local onde atracava a maioria das embarcações que chegavam a Macapá. Depois de inúmeras reformas, foi reconstruído em concreto armado. Ao lado do cais com 472 metros de cumprimento, está a Pedra do Guindaste. A rocha já foi a causa da colisão de muitas embarcações, mas hoje abriga a imagem de São José, o padroeiro de Macapá.

Depois de passar diante do Trapiche Eliezer Levy e, mais a frente, da Fortaleza de São José, Charles procura vagas para estacionar. O mercado é simples e o movimento não é intenso como nas capitais de maior porte. Na entrada, Charles encontra seu fornecedor de peixes. Diante de sua bancada, um imenso peixe descansa chamando a atenção de quem passa. É o conhecido filhote, um peixe que pertence à família dos bagres. Charles admira o peixe e afirma: “É uma das carnes mais saborosas que conheço.”

Com mais de 1 metro de cumprimento e, pelo menos, 25 quilos, o filhote vem lentamente ganhando destaque em algumas cozinhas do Sudeste. A espécie pode ser confundida com a dourada, que é da mesma família, mas não possui uma carne tão saborosa. A diferença entre as duas espécies é sutil, e identificada na coloração na pele e no formato da cabeça. Charles, filho de pescador, conta que há peixeiros que adoram enganar o consumidor, vendendo dourada por filhote. Outros usam sangue de boi para lavar as brânquias dos peixes e dar a aparência de fresco. Ele conta também que algumas etnias indígenas têm receio de capturar a piraíba, pois crêem que algumas almas podem se transformar no peixe.

Do outro lado da rua, Charles checa a qualidade dos pitus – os camarões de água doce, comuns nos igarapés locais. Um dos feirantes é um conhecido de Charles. Acertados os preços, ele promete levar uma caixa de isopor com alguns quilos do crustáceo até seu restaurante. Os itens seguintes na lista de compras são folhas de chicória e de jambu, encontradas numa mesma barraca. Charles conta que, no dia anterior, o jambu estava em falta na cidade. Macapá ainda peca pela falta de alguns itens importantes para o restaurante. Como no dia anterior Charles cedeu parte de seu estoque de jambu para uma colega de profissão, hoje ele vai comprar um pouco mais do que o usual.

A Vila de Curiaú

Terminadas as compras, é hora de conhecer os arredores da cidade. O carro ganha uma rodovia e segue em direção à Vila de Curiaú. Doze quilômetros depois, a mudança de ares é facilmente percebida. O terreno é de horizonte largo, com algumas árvores solitárias no meio da mata alagada. Búfalos de grande porte pastam no meio da água. Por entre eles, um senhor de pé sobre uma canoa usa um longo bastão para se locomover, como fazem os gondoleiros em Veneza. Às margens da estrada que corta o local, surgem as primeiras casas. Humildes, abrigam descendentes de escravos, os únicos moradores da comunidade. Charles explica que a Vila do Curiaú é uma área de preservação ambiental e habitada apenas por descendentes dos negros que construíram a Fortaleza de São José. As duzentas famílias que moram no Curiaú só podem vender ou passar o título de posse para pessoas da própria comunidade, preservando as tradições religiosas e culturais de seu povo. Entre as manifestações culturais, a festa do Marabaixo é a mais popular delas.

O Marabaixo.

O Marabaixo é a mais tradicional manifestação folclórica de Macapá. A festa, que tem início na Páscoa e continua adiante por semanas, segue a tradição dos escravos no século 18 e celebra o Divino Espírito Santo. Regidos pelo ritmo dos tambores e regados por muita gengibirra – uma bebida feita de gengibre ralado, cachaça e açúcar -, os homens se movem em movimentos parecidos com os de um capoeirista, enquanto as mulheres, frenéticas, cantam e dançam. Dias depois, há uma toada festiva até o local onde acontece a colheita da murta – um arbusto de aroma peculiar e prazeroso usado para espantar os maus presságios. Os festeiros, empunhando as ramagens da planta, rezam ladainhas em frente a um altar ornado com fitas, velas e coroas de prata. O clímax do marabaixo acontece com o Encontro dos Tambores, quando grupos exibem seus mastros enfeitados com flores e bandeiras do Espírito Santo.

O Estaleiro

É hora do almoço. Está na hora de Charles retornar a seu restaurante com as compras. O Estaleiro é especializado em frutos-do-mar e seu cardápio inclui filhote, pirarucu, camarão rosa, pitu. O restaurante é decorado com temas marítimos. Do lado de fora, há uma enorme âncora diante da fachada. Junto à porta, os clientes são recepcionados por um garçom em trajes de marinheiro. Do lado de dentro, há muito que ser apreciado. Todo em madeira, o local remete ao interior dos barcos presentes na memória de cada um. Na entrada, a estátua de um capitão dá as boas vindas. O mar é uma referência em todo o ambiente: quadros com nós de marinheiros, desenhos de veleiros, pôsters de filmes, e fotos de peixes diversos cobrem as paredes. Do teto, pendem bóias e lemes, com redes de pesca cobrindo as vigas de sustentação. E para completar, um barco em tamanho natural descansa ancorado no meio do restaurante.

Charles parte em direção à cozinha e pede ao garçom para preparar uma das especialidades da casa: o filhote ao molho de tucupi. Em instantes, chega à mesa uma casquinha de caranguejo que, deliciosa, serve para aguçar ainda mais o apetite. Nos finais de semana, únicos dias em que O Estaleiro está aberto para o almoço, o restaurante é muito procurado por famílias. É constante a presença de crianças. Todas adoram se divertir dentro da réplica de uma cabine de barco. Brincam de ser marinheiros e posam para fotos junto ao leme.

Com o cair da tarde e o movimento no restaurante já minguando, é hora de Charles ir para a casa descansar. Dentro de poucas horas, a casa irá reabrir para os clientes do jantar. Mas antes de chegar ao lar, ele faz uma visita a uma colega do ramo e aproveita para comer uma sobremesa.

Os bolos da Socorro

O estacionamento do Divina Arte, de propriedade do casal Socorro e Dirney, é um ponto disputado. Não importa a hora do dia, sempre há carros no local. São muitos os fregueses indo e vindo. Todos adoram passar no Divina Arte antes de ir para casa, seja para apanhar uns salgados para o lanche ou até mesmo para sentar por alguns minutos e se deliciar com a especialidade da casa: os bolos de tudo que é sabor. É difícil escolher apenas um dentre os muitos expostos na vitrine. Nessas horas, a sugestão de Socorro é sempre bem-vinda. É ela quem desenvolve minuciosamente as receitas. Depois de testados, os bolos são submetidos à aprovação da família e só então ganham sua vaga na vitrine. Uma das últimas criações de Socorro é o bolo de creme de cupuaçu, castanhas e chocolate. Charles aceita a sugestão e pede uma fatia. Agora sim, ele pode seguir para casa e relaxar com prazer antes de começar mais um turno de trabalho.

Onde Comer

Restaurante O Estaleiro
Avenida Primeiro de Maio, 52 - Bairro: Trem
(96) 3222-8375