De olhos abertos
Fábio Sicília é o chef-proprietário do restaurante Dom Giuseppe, em Belém. Apaixonado por chocolate, sempre que a guloseima é mencionada numa conversa, Fábio se empolga. Para ele, não se trata apenas de um alimento, mas algo que nutre a alma, um prazer sem igual. A paixão de Fábio pelo chocolate é tamanha que a conversa se estende por caminhos que incluem a sua origem: o cacau.
O Pará detêm a segunda maior produção de cacau do país, ficando atrás apenas da Bahia. “No interior do estado há muitos cacaueiros”, conta Fábio. “A maioria desses pés é nativa”. O chef continua sua história dizendo que apesar do estado possuir o fruto do qual o chocolate é derivado, todo o processamento para fabricá-lo acontece no exterior. É irônico saber que o país é um dos maiores exportadores de cacau do mundo, mas que grande parte do chocolate que comemos é feita no estrangeiro. Fábio conta não se conformar com este fato, e espera que logo o Pará possa produzir um chocolate feito do cacau nativo da Amazônia.
Foi o physalis, uma fruta exótica e desconhecida, que despertou Fábio Sicília para a riqueza da flora nativa do Pará. Quando estudava gastronomia na Itália, essa pequena fruta alaranjada e recoberta por uma casca semelhante à palha lhe foi apresentada em um evento. De volta ao Brasil, curioso por descobrir suas origens, foi encontrá-la, a preços exorbitantes, no mercado municipal de São Paulo. Ao chegar em Belém com algumas frutinhas, foi surpreendido por uma de suas funcionárias: “Olha só, camapu!”, exclamou apontando para o physalis. Fábio pensou que ela estivesse brincando: “Camapu?, indagou. “Sim, camapu. Isso é mato no quintal lá de casa”. O fato deixou Fábio boquiaberto e mais fascinado ainda pela diversidade natural de sua terra.
Semanas depois, já mais atento para as riquezas do Pará, Fábio descobriu que o estado era o segundo na produção de cacau do país. Ao comentar sobre o assunto com seu amigo César Mendes, este, um grande entusiasta do cacau, o convidou para ir até Medicilândia. O município, perto de Altamira, possui cacaueiros em abundância. Fábio topou o convite. Ao chegar ao local, se encantou com o tamanho das plantações de cacau e ficou admirado com o conhecimento dos ribeirinhos sobre a produção do chocolate. Bastava a eles colocar as sementes do cacau para secar, torrá-las em uma panelinha e depois socá-las no pilão. Aos poucos, juntavam água e logo a massa de cacau estava pronta.
Depois do aprendizado com os ribeirinhos, Fábio retornou a Belém disposto a servir sobremesas feitas com chocolate local. Hoje, o restaurante Dom Giuseppe compra massa de chocolate 100% paraense para ser usada nas sobremesas como brownie ou na receita de chocolate quente servida à clientes especiais.

