O elo entre a cidade e a selva
É impossível pensar em Belém e não associá-la imediatamente ao mercado Ver-o-Peso. O local mais conhecido da cidade é um mercado a céu aberto que abriga centenas de barracas, cada uma mais excêntrica que a outra. No ambiente caótico, pode-se encontrar de tudo: filhote de jibóia, língua de pirarucu, dentes de cobras, bastões de guaraná, frutas regionais como o uxi e o buriti, sementes de pimentas, e até poções para atrair amor ou dinheiro.
Belém está localizada próxima à foz do Amazonas. Por este motivo, os belenenses consideram a cidade a porta de entrada da maior floresta do mundo. Neste contexto, o Ver-o-Peso não é apenas um mero mercado, um local onde se compram os ingredientes para o jantar de logo mais, e sim o elo entre a cidade e a selva. Há mais de 300 anos, barcos aportam na Baía de Guajará trazendo os mais exóticos produtos encontrados somente nas profundezas da floresta.
A história em um nome
A história do Ver-o-Peso remete ao ano de 1688, época em que os portugueses criaram um posto de fiscalização e tributos – a Casa do Haver-o-Peso – para aumentar o controle alfandegário na Amazônia. Tudo que chegava ao mercado era pesado e assim eram calculados os impostos destinados à Coroa portuguesa.
As características arquitetônicas do mercado como se conhecem hoje somente passaram a existir no final do século XIX e início do século XX. Apenas em 1901 foi instalada a estrutura de ferro em estilo neoclássico com suas torres góticas que marcam a fachada do Ver-o-Peso. A construção conhecida como Mercado de Ferro – ou Mercado de Peixes, por ser o local onde a pesca é vendida é apenas uma parte do complexo do mercado. A área totalizada inclui também a Praça do Relógio, a Praça dos Velames, a Praça do Pescador, o Palacete de Bolonha, a Feira do Açaí, o Mercado de Carnes, além de um enorme pátio onde estão centenas de barracas. Há ainda uma área coberta por uma tenda bege sob a qual é servido peixe frito, açaí, maniçoba, vatapá, e outros pratos típicos dos paraenses.
Aguçando os sentidos
O ver-o-peso é organizado em seções, cada uma destinada a determinados produtos. Há locais reservados para artesanato, vestuário, carnes secas e defumadas, polpas de frutas, farinhas, ervas medicinais, frutas, etc. Caminhar pelo mercado exige tempo até acostumar os sentidos. É preciso deixar os olhos se ajustarem ao colorido de uma paleta gastronômica sem igual: o amarelo vivo das garrafas pet com tucupi, o verde bem escuro da maniva moída, o rosa claro do jambo, o vermelho-tinto da casca do buriti, o roxo das tigelas com polpa de açaí, e o laranja dos cachos de pupunha.
Os cheiros surgem por tudo que é canto. É preciso pausar o passeio para tentar descobrir sua origem. Cupuaçu? Bacuri? Graviola? O visitante levará um tempo até conseguir identificar as frutas locais pelo aroma. Talvez até precise anotar o nome tamanha a diversidade. Por fim, sons adentram pelo ouvido e se misturam em ritmo ensaiado: o agudo de uma tesoura sem corte que separa a polpa da fruta de sua semente, o ranger de uma máquina que abre sementes de castanhas e o blob, blob da centrífuga com polpa de açaí ao ser desligada.
Com os sentidos já habituados à inicial estranheza do Ver-o-Peso, o passeio segue por entre as fileiras de barracas que vendem mantas de pirarucu seco – o chamado “bacalhau da Amazônia” -, sacos de fibra com farinhas diversas, pimentas secando ao sol sobre um pedaço de lona, e baldes que guardam polpas de frutas. Sentado num banco alto, um senhor se ajeita para que o ventilador jogue um pouco de ar fresco em seu rosto. Um outro toma guaraná Garôto com cachaça. Ao fundo, um menino martela um cupuaçu para abri-lo no meio. O adolescente mistura numa cuia, com a ponta dos dedos, um pouco de farinha com água. Ao formar uma bola, arremessa-a, de longe, para dentro da boca, acertando o alvo.
As mandingueiras
Além de ingredientes gastronômicos, o Ver-o-Peso também vende poções que prometem curar os dramas do cotidiano, sejam eles de natureza física ou emocional. Mulheres conhecidas como mandingueiras simbolizam a excentricidade do mercado. Enquanto não aparecem clientes, elas fofocam, fazem intrigas, tingem o cabelo e pintam as unhas dos pés. Caso surja um freguês em potencial, ele é disputado por todas. Se der atenção, a mandingueira sorri e o segura carinhosamente pelo braço, se oferecendo para ouvir suas mazelas.
Para quaisquer problemas, há sempre uma solução. Não importa se o sintoma seja insônia, indigestão, calvície, reumatismo, gastrite ou até traição, mau olhado, e falta de dinheiro. O remédio está em uma das poções ali vendidas.
Muitas das mandingueiras trabalham no mercado há mais de 30 anos. Suas receitas miraculosas foram transmitidas de geração em geração, e a maioria é baseada em receitas indígenas. Um exemplo é o óleo de andiroba, uma árvore local, usado para o alívio da dor contra pancadas e inchaços – uma espécie de Gelol amazônico. Já o pau-rosa, outra árvore amazônica, apesar de não possuir propriedades medicinais, é um dos mais conhecidos produtos do Ver-o-Peso. Isto por ser um dos principais componentes do famoso perfume francês Chanel número 5.
“Ao acordar, para ter energia e ficar bem disposto, basta ralar o bastão de guaraná na língua do pirarucu e misturar com água”, recomenda Beth Cheirosinha, uma das mais conhecidas mandingueiras do mercado. “Se o problema for excesso de bebida, recomendo pó de fígado de urubu”. Beth Cheirosinha é filha de Maria de Lourdes das Mercês, a dona Cheirosa, a mais famosa e respeitada vendedora de ervas e cheiros da história do mercado, que ali trabalhou por 79 anos até falecer em julho de 2003. Em sua barraca no mercado, de número 19, são encontrados frascos com tudo que é cura.
Os nomes: “hei-de-vencer”, “comigo-ninguém-pode”, “vence-batalha”, “amansa corno” e o vingativo “chora-nos-meus-pés”. Para os comerciantes, ela indica o “chama-tudo”. Se o problema for de amor “como é para a maioria das pessoas”, revela, “leve o “atrativo do amor”. Para isso, escreva o nome da pessoa num papel e coloque no vidro. Chacoalhe e depois passe a poção pelo corpo”, orienta Cheirosinha. Mas se o problema é mais complicado, ela recomenda comprar parte da genitália do boto. É isso mesmo: no Ver-o-Peso são vendidos pedaços do “sexo” de boto fêmea ou macho dentro de um líquido em garrafinhas.
Cheirosinha se aproxima e explica o uso no pé do ouvido, cochichando de forma discreta: “isso enlouquece o homem. A mulher deve esquentar o vidrinho em banho-maria e depois passar a substância dentro dela, minutos antes do sexo, como se fosse um lubrificante”. Beth Cheirosinha diz que o homem ficará enfeitiçado. Vai querer ir para a cama a todo instante. E como ele não vai agüentar garantir a performance sexual, ela recomenda uma outra poção: o “viagra natural”.
O Mercado de Peixes e a Dona Carmelita
Ao lado das barraquinhas das mandingueiras está o Mercado de Peixe. Dentro da estrutura que é símbolo do mercado, dezenas de espécies de peixes são comercializadas. Cada bancada contém pia e peixes filetados como piramutabas, cascudos, e filhotes. Facões afiados cortam o ar e dividem tucunarés e robalos em postas ao gosto do cliente.
Do lado de fora do Mercado de Peixes, a barraca de Dona Carmelita expõe diversas frutas regionais: cacau, uxi, jambo, tucumã, buriti, cupuaçu, ingá,... Há anos trabalhando sob as torres-símbolo do mercado, Dona Carmelita é mais uma das preciosidades deste local. Quem conhece o Ver-o-Peso, estes sabe que ele não é apenas um mero cartão postal de Belém, mas sim uma amostra das muitas facetas do povo brasileiro.

