Temperando com frutas
Quem chega ao Paraíso Tropical é logo contagiado pela alegria de seu proprietário. Dono de uma risada peculiar, o agrônomo Beto Pimentel recebe os clientes, faz sugestões de pratos, anota os pedidos e conta, ocasionalmente, uma ou outra piada. Afinal, ele sabe que a alma de seu restaurante não é somente o cardápio, que combina divinamente frutas com peixes, polvos, camarões e lagostas, mas também sua personalidade e entusiasmo jovial.
Localizado no bairro de Cabula, em Salvador, o Paraíso Tropical funciona em uma chácara de 28 mil metros quadrados. Nessa imensa área, além do restaurante há uma criação de galos – o local já funcionara como sede de rinhas -, a residência de Beto e um pomar com mais de cinco mil árvores frutíferas. Dos pés de coqueiros, jabuticabeiras, limoeiros e dezenas de outras espécies, colhem-se as frutas utilizadas pela cozinha no preparo de caipiroscas, sucos, vinagretes, molhos, moquecas e pratos grelhados.
O Paraíso Tropical é um desses restaurantes onde as horas devem ser esquecidas. Para saborear o cardápio de Beto Pimentel em sua plenitude, recomenda-se dedicar uma tarde preguiçosa para curtir as várias etapas de uma refeição. Outra sugestão é estar aberto a novos sabores, texturas e combinações. Ao encontrar nomes estranhos no cardápio, como preguari, aratu, pititinga, maturi ou biribiri, basta perguntar o significado ao garçom. Devidamente instruído, ele explicará ser, respectivamente, um molusco, um caranguejo pequeno, um peixe, a castanha de caju verde e uma fruta cítrica.
Depois de escolher uma das mesas localizadas numa agradável varanda cercada de verde, pode-se iniciar a refeição com um suco ou uma rosca – diminutivo de caipirosca. Dentre as opções, há umbu-cajá, graviola, pitanga, sapoti, tamarindo, mangaba, jambo, jaboticaba, biribiri, cupuaçu, caju, além de outras frutas. Seja qual for a escolha, o cliente se surpreenderá. Para prepará-los Beto tira a polpa da fruta, congela e a serve como se fosse um sorbet com um canudinho espetado. Na seção de petiscos, encontra-se tanto agulhinha empanada servida com farofinha, vinagrete e molho de pimenta, quanto siri mole ao alho e óleo guarnecido de molho tártaro. Dentre os caldos, há os de polvo, camarão, preguari ou sururu. Pode-se ainda pedir casquinhas de siri, lagosta ou aratu, além de saladas com ostra, siri catado ou frutos do mar.
Ao estudar os pratos principais no cardápio, nota-se uma página intitulada “Moquecas Especiais ao Paraíso”. Nas mãos de Beto Pimentel, a tradicional receita baiana é reinterpretada de maneira criativa. Com o intuito de ganhar leveza, o prato é preparado com palmito de coqueiro fresco, polpa de coco verde, sumo do fruto do dendê, biribiri, maturi e pimenta biquinho. Ao ser combinado com camarão, lagosta, polvo, peixe ou uma mistura de dois ou mais frutos do mar, a receita torna-se uma iguaria singular. Outras especialidades da casa são o arroz com mariscos, coco verde, manga e brócolis; os frutos do mar com frutas grelhadas e ervas aromáticas; e a torta com creme de palmito, aratu, camarão, siri mole frito, biribiri, amora e pitanga.
Antes da sobremesa, e para facilitar a digestão, o cliente pode pedir a Beto para conhecer parte de seu pomar. Durante o passeio por entre milhares de árvores, percebe-se a paixão do agrônomo pelas frutas. Com um imenso sorriso estampado no rosto, Beto mostra com orgulho sua plantação. A cada minuto, ele pára, apanha uma fruta e ensina como prová-la. “Coma de uma só vez. Isso. Coloque-a inteira na boca”. Mais adiante ele instrui para explodir a fruta com os dentes e jogar a casca fora. Uma outra espécie deve ser saboreada raspando a polpa com os dentes. E assim segue o passeio, sem pressa, a saborear as frutas colhidas do pé.
Ao retornar ao restaurante, a sobremesa é servida como cortesia da casa. O garçom coloca sobre a mesa uma rústica cesta de vime com dezenas de frutas, como mangas, carambolas, pinhas, bananas, ingás, cajus e outras com nomes exóticos difíceis de serem decorados. Após se mostrar satisfeito com a quantidade de frutas provadas, o cliente é incentivado pelo garçom a levar o que sobrou. É nesse instante, ao carregar uma sacola de frutas para casa, que se percebe ser impossível encontrar um nome mais adequado para o restaurante. Paraíso Tropical é perfeito.

