A jangada, antes e hoje
Assim como as demais, a jangada de Dedé transporta no máximo seis passageiros. Fechado o grupo, ele chama todos a bordo para dar início a travessia. Mesmo distante é possível avistar um pequeno aglomerado de jangadas nas piscinas naturais. Depois de empinar o tronco da vela, Dedé começa o zingar, um movimento com o remo que faz a jangada ziguezaguear em direção ao mar. Inicialmente tímida, a vela vai se soltando e, preenchida pelo vento, se revela em toda sua plenitude. Dedé, com a ajuda de uma cuia, pesca um pouco de água do mar e molha a vela. “É para fechar os poros do tecido e ganhar velocidade”, explica.
Com a embarcação em rápido deslizar, o jangadeiro pergunta de que cidades são seus passageiros. Um casal de cariocas e pai e filho de Minas. Em seguida, acenando para um companheiro que faz o trajeto de volta, ele puxa conversa dizendo que, por ser época de lua minguante, a piscina natural não estará muito rasa. quanto em época de lua cheia e lua nova, quando a água bate no joelho. O carioca pergunta o por quê da ausência de barcos. “Vixi, tá doido? Pra que barco barulhento? Só serve para assustar os peixes”, e conclui dizendo que embarcações a motor são proibidas por ameaçar o banco de corais.
Quinze minutos depois de iniciada a travessia, chega-se às piscinas naturais. Logo se percebe que o passeio vale a pena. Dezenas de pessoas com água até a cintura se divertem mergulhando com snorkel ou nadando entre peixinhos. Ao redor, há um colorido emaranhado de jangadas. Enquanto algumas chegam e arriam suas velas, outras partem de volta ao continente.
Um garoto com óculos espelhados se aproxima da jangada de Dedé. Ele carrega uma bandeja. Nela está o cardápio: peixes de diferentes tamanhos e espécies, lagostins e camarões. Há ainda a opção de cerveja gelada, caipirinhas de frutas e água de coco. O casal carioca examina os frutos-do-mar e faz um pedido ao garoto. Este se retira em direção a uma das muitas jangadas que funcionam como bares flutuantes. Nelas, garçons cantam pedidos, um barman prepara uma batida de frutas e cozinheiros limpam e refogam crustáceos.
Depois de alguns mergulhos, o casal carioca é chamado pelo garçom com um assovio. “Tá pronto”, diz ao se aproximar com uma prancha de isopor que servirá de mesa. Sobre esta, ele coloca uma porção de camarões e lagostins no alho e óleo. Minutos depois, para incredulidade geral, nota-se, no meio da muvuca, um ambulante circulando com um carrinho flutuante de picolés. Enquanto o carioca beberica uma caipirinha e belisca pedaços de lagostins, sua esposa tem o olhar fixo no horizonte. Ela parece admirar a silhueta de prédios que circunda a orla. Ou será que se diverte escutando os diferentes sotaques de turistas ao seu redor? Ou então, quem sabe, agradece o privilégio de estar nas piscinas naturais de Pajuçara.

