Encarando o turu
São mais ou menos duas da tarde na Ilha de Marajó. O horário exato não é de suma importância em lugar tão remoto. Basta saber que é hora de maré baixa, fato essencial para possibilitar a aventura. O adolescente Sidnei e seu vizinho Elinai estão às margens de um igarapé que corta o mangue.
Com as botas sete léguas afundadas na lama, os dois retiram a água da chuva de dentro de uma canoa que parece estar a ponto de se desmanchar. Ao lado deles, há um balde, um machado, alguns limões e saleiro. Depois de quase seca, é hora de desamarrar a canoa e dar inicio à missão: encontrar troncos apodrecidos pelo mangue e, dentro deles, procurar pelo estranhíssimo turu.
A canoa segue devagar igarapé acima. Elinai está no remo e Sidnei na proa procurando troncos caídos sobre a lama do mangue. O silêncio é quebrado pelo grito de algum macaco escondido nas árvores. Uma chuva bem fininha começa a cair. A densidade do mangue é tamanha que apenas pedaços do céu podem ser avistados. Na água barrenta, surge um peixinho esquisito chamado tralhoto. Comum nas águas salobras de Marajó, o tralhoto é também conhecido por quatrolho por causa de seus olhos grandes que sempre sobressaem quando ele nada junto à superfície da água.
Sidnei avista um possível tronco apodrecido. Ele explica que o turu gosta apenas das árvores que ficam encostadas sobre a lama. É também necessário que os troncos sejam de árvores do manguezal e de coqueiros ou outros espécies ali comuns como andiroba e siriúba. A canoa é amarrada numa árvore por Sidnei enquanto Elinai apanha o machado. Segundos depois, o tronco é golpeado por machadadas. Nota-se em instantes que ele não está podre, ou seja, nada de turu. A busca segue então igarapé acima.
A chuva cessa. Todos agradecem ao céu. Mais um tronco caído às margens do mangue é encontrado. Aproxima-se a canoa. Elinai dá novas machadadas, mas nada de turu. Porém, ao contrário do último tronco, há túneis cavados pela madeira, indicando que o turu já esteve por ali. A viagem segue adiante. A canoa passa por sob copas das árvores que formam um túnel verde. Junto às margens, há raízes que pendem das árvores, talvez cipós. Outras saem da água caracterizando as típicas raízes aéreas do mangue.
A canoa é encostada sobre a lama e amarrada mais uma vez. Sem descer da embarcação, Elinai dispara um golpe de machado num tronco. Imediatamente ele aparece. O turu! Do tronco podre, turus pegos de surpresa pendem sobre a água, como se fossem macarrões.
O turu parece uma gigantesca minhoca. Ou melhor, uma lombriga branca e leitosa. Logo que o tronco é aberto, os turus morrem. Sidnei explica que a causa da morte talvez seja sua grande sensibilidade à luz, tal qual os vampiros. Por essa razão, o bicho não fica mexendo sem parar como as minhocas. Estáticos, os turus são retirados do tronco e postos dentro do balde. Sua textura é gelatinosa, pegajosa. Alguns chegam a alcançar um metro de comprimento; e os mais apetitosos, bem gordinhos, são da grossura de um polegar.
Sua cabeça é dura e traz na ponta uns dentinhos que servem para raspar a madeira da qual se alimenta. O tronco que os turus habitavam encontra-se todo escavado, cheio de buracos, como se fosse um queijo suíço. Uma outra machadada é desferida e surgem novos turus. O tronco está repleto deles. Sidnei e Elinai decidem então colocar todos os troncos dentro do barco e voltar ao ponto de partida. Em terra firme será mais fácil quebrar toda a madeira e retirar todos os bichos.
No caminho de volta, Sidnei não se contém e decide degustar alguns turus ali mesmo dentro da canoa. Também conhecido como bicho do pau, o turu é uma das iguarias prediletas dos nativos de Marajó. O turu é rico em cálcio e proteína, mas os caboclos o preferem por outro motivo. Além de gostoso, eles acreditam que o turu é um dos maiores fortificantes da natureza, servindo para “levantar a moral” e dar conta do recado junto à esposa.
Sidnei inicia sua degustação abrindo o ventre do turu, com um espinho, de cima a baixo. O corte serve para remover seu sistema digestivo, cinzento e pegajoso. Em seguida, Sidnei o lava na água do igarapé. Basta então temperá-lo com sal e limão e pronto: agora é só sugá-lo como se fosse um fio de espaguete. Há outros que preferem enrolá-lo no dedo e colocar na boca de uma só vez.
Os gourmands que não têm medo do exótico comparam o gosto e a textura do turu à ostra, ao mexilhão ou até à polpa de um coco verde. Ele conta também que há uma outra iguaria típica da Ilha de Marajó: o tapuru. Este é uma larva muito adorada pelos nativos. O tapuru vive dentro do coquinho do tucumã e deve ser preparado fritinho na frigideira. Depois de pronto, usa-se também o óleo que a larva soltou durante o cozimento para temperar arroz ou uma farofinha.
Ao chegar em terra firme, o tronco recebe inúmeras machadadas se abrindo em vários pedaços. Os inúmeros turus são retirados um a uma e colocados dentro de um balde. Sidnei conta que o preço do turu vendido a alguns restaurantes e pousadas é de 4 reais o litro – medido em uma lata de óleo de soja. Depois de completar o trabalho de remoção, Sidnei olha o conteúdo do balde e faz uma estimativa: “acho que deve ter uns 3 ou 4 litros de turu”. Agora, resta a ele e a Elinai procurarem um comprador. Senão, os dois prometem devorá-los por completo, cru ou numa sopa, até o dia seguinte.
Duas formas de preparar o turu
Além de cru, o turu pode ser degustado de outras maneiras. Dois exemplos são: o caldo de turu e a frigideira de turu. O caldo ou sopa de turu é preparado da seguinte forma: inicialmente, o turu deve descansar em uma tigela por uma hora para soltar um líquido leitoso e de cor roxo claro que será essencial na hora do cozimento. Sobre o fogo, coloca-se uma panela. Dentro dela, refoga-se em azeite um pouquinho de alho e cebola. Pode-se juntar ainda um pouco de pimentões coloridos e cubinhos de tomate. Junta-se o turu e o liquido que soltou ao descansar na tigela. Cozinha-se por no máximo uns quatro minutos para que ele não fique borrachudo. O tempero da sopa é finalizado com sumo de limão, sal e pimenta-do-reino a gosto e um pouquinho de salsinha picada por cima.
A frigideira de turu é preparada junto com mexilhões, vôngoles, ervas, um azeite de qualidade e um pouquinho de alho. Pode ser servido à beira da piscina em um domingo ensolarado para comer com fatias de pão.
Algumas dessas iguarias são preparadas nos restaurante de Soure e Salvaterra, na Ilha de Marajó. Porém, é sempre bom telefonar antes para os estabelecimentos para checar a disponibilidade. Alguns dos locais que preparam o turu sob encomenda são a Pousada São Jerônimo e o restaurante Delícias da Nalva, ambos em Soure.

