Nos moldes dos antepassados
Durante a estação das chuvas, em pleno século 19, fragmentos de cerâmica foram encontrados sob o casco dos búfalos em fazendas alagadas na Ilha de Marajó. A descoberta concluiu que ali havia existido uma tribo indígena que fazia um sofisticado trabalho artesanal. As peças de cerâmica apresentavam traçados e texturas que revelavam a existência de uma sociedade avançada culturalmente que ali viveu entre os anos 400 e 1300 depois de Cristo.
Os índios marajoaras tinham o costume de representar os eventos de seu cotidiano na cerâmica. Grafias e desenhos ilustravam cerimônias como casamento e o ato de caçar. A técnica ceramista dos marajoaras incluía agregar substâncias calcinadas como casca de árvores ou carapaças de tartarugas raladas, o que permitia dar maior elasticidade ao barro. Para dar cor, usavam o urucum para fazer tinta vermelha e o carvão e a fuligem para o preto. Depois de cozidas, as peças recebiam uma espécie de verniz feito do breu do jutaí – uma árvore local – e eram polidas com folhas de caimbé.
Carlos Amaral
O ceramista Carlos Amaral segue métodos de trabalho que remetem à tradição dos índios marajoaras. Descendente dos aruãs, povo já extinto na região, Carlos conta ter aprendido a técnica da cerâmica com sua avó: “Aprendi com ela a mistura da argila e o segredo das cascas das árvores, como o cumatê, que dá mais liga para a argila”. Dentro de seu ateliê em Soure, Carlos revela usar os conhecimentos dos marajoaras no seu trabalho: “o barro daqui tem cor avermelhada.
Eu o misturo com cascas de cumatê e cariapé para dar elasticidade. Como tinta, uso argilito e caulim, e para desenhar, dentes de queixada, sucuri ou jacaré”. Além de preservar a tradição dos índios ceramistas, Carlos pesquisa os símbolos da cultura marajoara, tendo já identificado 75 deles, entre grafismos e formas de animais.
- M’Barayo Cerâmica
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