A capital mais lusitana do Brasil

Um lento passeio pelo centro histórico de São Luís é uma boa maneira de conhecer a charmosa capital do Maranhão. Tendo vivido parte da história colonial brasileira, a cidade possui um rico patrimônio cultural. Há casarões revestidos de azulejos, escadarias extensas e largas, becos estreitos e vielas encantadoras.

Caminhar pelas ruas de pedras, tranqüilas e silenciosas, revela tanto a beleza da arquitetura de traços lusitanos quanto locais bastante peculiares que se escondem entre os vestígios do passado.

São Luís, Patrimônio Cultural da Humanidade

Em 1997, a Unesco concedeu à cidade o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. O conjunto arquitetônico de São Luís é formado, na maioria, por edificações que datam dos séculos XVIII e XIX. Diferentemente das cidades históricas mineiras, que se destacam pela presença de igrejas suntuosas, repletas de detalhes em ouro, o patrimônio arquitetônico de São Luís é caracterizado pela homogeneidade e pela simplicidade dos sobrados coloniais.

O surgimento de Saint Louis

Em 1612, os franceses, liderados por Daniel de La Touche, chegaram à região da atual São Luís com o objetivo de fundar a França Equinocial. Com a celebração de uma missa e o início da construção de um forte, foi fundada a cidade de Saint Louis, uma homenagem ao rei Luís XIII, da França. Mas a alegria dos franceses durou pouco. Em 1615, a tropa lusitana, comandada por Alexandre de Moura, expulsou os invasores. Da fundação da cidade restou apenas o nome: São Luís. Anos depois, em 1641, foi a vez dos holandeses tentarem ocupar a região. E assim como os franceses, a ocupação durou apenas três anos. Em 1644, os invasores foram novamente expulsos pelos portugueses.

Um passeio pela história

O coração da capital maranhense, o centro histórico, é habitado por moradores e não por turistas. Uma vez que os hotéis não se concentram nessa área da cidade, é comum sentir o cheiro de comida caseira na hora do almoço, esbarrar com crianças que voltam da escola e ver mulheres escovando o cabelo na sacada de suas casas.

Ao percorrer as ruas estreitas de São Luís, notam-se sobrados coloniais com até quatro pavimentos – algo raro de ser encontrado em outras cidades históricas. No passado, as edificações tinham dupla função: no primeiro andar, funcionava o comércio; nos outros andares, a residência. Durante o passeio, surgem casarões imponentes, a maioria construída com o dinheiro lucrado pelos barões com a produção de algodão nos arredores de São Luís. Além das grossas paredes de pedra, das sacadas altas e dos balcões rendilhados em ferro fundido, os casarões apresentam a assinatura arquitetônica da cidade: as paredes externas revestidas em azulejos portugueses.

Tipicidades do centro histórico

Escondido em um cantinho na Rua Humberto Santos, número 205, o Ambulatório Santos é uma preciosidade entre os ludovicenses. Tonico Santos sempre foi conhecido por ser um senhor simpático que, além de aplicar injeções, vende deliciosos licores de frutas regionais. Recentemente, passou a ser identificado também como o pai do cantor Zeca Baleiro. Orgulhoso, Seu Tonico decora as paredes do ambulatório com fotos e posters do filho famoso. Num outro canto, em cima de uma estante, descansam seus licores artesanais. Os sabores são muitos, gengibre, laranja, jenipapo, bacuri, caju, capim limão, pitanga, murici, acerola, mas que os mais vendidos não são os licores e sim o Bom Que Dói e a Catuaba, duas bebidas muito populares na região.

o Bom Que Dói

Seu Tonico explica que o Bom Que Dói é uma mistura de erva doce, cravo, canela, cachaça e mel. A bebida passa de 10 a 12 meses maturando antes de ser comercializada. O Bom Que Dói é um sucesso entre o público feminino e “deixa as mulheres bem alegrinhas”, conta o farmacêutico. “A catuaba é uma das bebidas mais consumidas em São Luís. Aqui não há baile de raggae sem ela”. Seu Tonico conta que a catuaba é a casca de uma árvore amazônica cujas propriedades são estimulantes e afrodisíacas. “E assim como o guaraná no Amazonas, o pó feito da casca da catuaba, de propriedades energéticas, deve ser misturado com água e mel”. Seu Tonico prepara o liquido de forma diferente, misturando o Bom Que Dói com a casca da catuaba.

A Rua da Estrela é uma das principais do centro histórico de São Luís. Também batizada com o nome de Cândido Mendes, a rua possui muitos dos mais belos sobrados azulejados da cidade. Atravessando toda a extensão do centro histórico, seu inicio é na Avenida Pedro II, de onde desce em declive acentuado até a Praça do Comércio. Ali está localizado o Solar do Largo do Comércio, uma das edificações históricas mais importantes da cidade, é ali que se encontra a Casa das Tulhas, um pequeno mercado onde são vendidos ingredientes maranhenses. Nesse mesmo quarteirão está também o restaurante Antigamente.

A Caldeirada do Antigamente

Na hora do almoço, as mesas sobre a calçada são as mais disputadas do restaurante Antigamente. Debaixo da sombra das árvores, os clientes dividem a atenção entre o cardápio e os transeuntes que passeiam na rua proibida para carros. No interior do estabelecimento, o ambiente é confortável e despretensioso, combinando com a casa centenária de paredes grossas de pedra e janelas compridas que facilitam a entrada de luz natural. A especialidade local é a caldeirada de frutos-do-mar, uma iguaria tradicional de São Luís que é servida fumegante em panela de barro.

O preparo da caldeirada tem início com a escolha dos peixes. Geralmente, é usado aqueles mais comuns no litoral maranhense, ou seja, a pescada amarela ou o robalo. Depois de limpo e cortado em postas grossas, o peixe é posto a marinar em limão e sal. Na panela de barro, enegrecida pelo uso, juntam-se cebola, alho, e pimentões. Tudo é refogado minuciosamente. Novos aromas surgem com a adição de coentro e cheiro verde. À parte, ovos e batatas são cozidos. Além das postas de peixe, camarões, patas de caranguejos, vôngoles, e mexilhões, tudo bem fresquinho, são adicionados à panela. Acrescentam-se tomates e logo depois uma quantidade generosa de azeite. O caldo começa a borbulhar. A caldeirada já parece convidar o espectador para sua prova. Mas antes disso, é acrescido um leve toque de pimenta. O cozinheiro-chefe faz a prova. Satisfeito, ele junta as batatas e os ovos à caldeirada e chama o garçom para levá-la à mesa.

O aroma que desprende da panela preenche o ambiente do restaurante. Clientes que ainda estudam o que deveriam pedir fecham o cardápio. Estes, de olho na caldeirada da mesa ao lado, já sabem que a escolha será a especialidade da casa. Enquanto o garçom serve uma posta de peixe, dois ou três camarões, patas de caranguejo e mexilhões, a boca vai se enchendo d’água. Ao iniciar a degustação, o silêncio paira no ar. É o sinal de que tudo está maravilhoso.

De volta à caminhada

O simpático Café Estrela

Depois de já cometido o pecado da gula, é hora de reiniciar a caminhada que, dessa vez, além de percorrer casarões históricos também ajudará na digestão. Seguindo a Rua da Estrela em aclive ligeiramente acentuado, chega-se à Câmara de Vereadores, a antiga sede da Alfândega do Maranhão. Diante do local, uma senhora vende um tradicional doce de rua de São Luís: o quebra-queixo. Com o estômago já assentado, o doce é pedido sem remorso. O quebra-queixo, vendido ao longo de todo o centro histórico, consiste numa espécie de caramelo duro com coco ralado.

Depois da sobremesa, nada melhor do que um cafezinho. Para isso, basta continuar pela Rua da Estrela até o número 401, local do simpático Café Estrela. A casa é perfeita para justificar a pausa da caminhada. Dentro do Café, o piso de ladrilhos, as mesas de madeira e as paredes de tijolos criam o ambiente perfeito para o deguste da xícara de expresso.

Com a refeição fechada com chave de ouro, é hora de seguir adiante na Rua da Estrela. O passeio continua em declive até o Solar dos Vasconcelos, um dos mais valiosos exemplares da arquitetura maranhense do século XIX. Nele está o acervo do Memorial do Centro Histórico, que vale a pena ser visitado. Percorrido o museu, o sol brilha baixo sobre a Rua da Estrela. Os postes em ferro de fiação subterrânea – algo ainda raro em muitas cidades turísticas brasileiras – vão sendo acesos. É o anúncio de que o agradável dia infelizmente está chegando ao fim.

Onde Comer

Ambulatório Santos
Rua Humberto de Campos, 205
(98) 3232-7521
Restaurante Antigamente
Rua da Estrela, 220
(98) 3232-3964
Café Estrela
Rua da Estrela, 401
(98) 3254-1274