Martírio que compensa

A charmosa Alcântara está localizada a apenas 22 km de São Luis. Separada da capital pela baía de São Marcos, a cidade histórica somente é alcançada de barco. A travessia dura cerca de uma hora. Mas este tempo tão curto pode se tornar uma eternidade para muitos. Apesar de grande – dois andares e capacidade para mais de 160 passageiros -, e confortável — com ar-condicionado e televisão à bordo —, a embarcação que liga as cidades costuma seguir o balanço das ondas: para lá e para cá... Para lá e para cá...

O local e o horário de partida do barco são variáveis. Ambos dependem da tábua das marés de São Luís. Normalmente, a embarcação sai pela manhã do terminal hidroviário da cidade, retornando ao mesmo ponto no final do dia. Mas há ocasiões que, devido à maré vazante, um ônibus transporta os passageiros ao cais da Praia da Ponta da Areia, local alternativo para atracar embarcações. Por isso é ideal checar o horário e o local de partida no dia anterior à visita a Alcântara.

O Significado das Marés

Segundo o Dicionário Aurélio, maré é o movimento periódico das águas do mar, pelo qual elas se elevam ou abaixam em relação a uma referência fixa no solo. O fenômeno é causado pela atração gravitacional da Lua e, em menor escala, do Sol. A atração gravitacional da Lua causa o avanço da água dos oceanos sobre o lado da Terra que dela se encontra mais próximo. Nos períodos de lua cheia ou nova, o movimento das marés atinge as maiores amplitudes entre a preamar – nível máximo de uma maré cheia – e a baixa-mar – nível mínimo de uma maré vazante. Já em lua crescente ou minguante, ocorre o inverso. A duração de cada maré e suas variações – preamar e baixa-mar – costuma ter cerca de 6 horas e 12 minutos, ou seja, um quarto do período de translação da Lua, aproximadamente 24 horas e 50 minutos.
Em São Luís, a variação entre a preamar e a baixa-mar costuma ultrapassar seis metros.

Uma vez dentro do barco, um ajudante de bordo passa pela cabine distribuindo saquinhos plásticos. O barco inicia sua travessia. Não demora muito e as ondas fazem o barco entrar num ritmo de bumba-meu-boi, dançando de um lado para outro. Quinze minutos após a partida já surgem os primeiros “incidentes”. Os primeiros a pedir arrego são os durões, aqueles que debocharam de quem aceitara os saquinhos plásticos. O ajudante, já acostumado, apanha seus instrumentos de trabalho, rodo, pano de chão e pinho sol, e começa a limpar a sujeira. Minutos depois, um outro auxiliar entra na cabine e começa a correr de um lado a outro, distribuindo saquinhos sem parar. Num canto, um casal apaixonado passa mal. Não se sabe qual dos dois fica mais constrangido. Mas, quem sabe, o passeio inusitado possa servir para fortalecer a relação? Ou, então, para desandar de vez.

Muitos dos passageiros são moradores de Alcântara. Já acostumados com a travessia, eles recomendam levar um limão para cheirar durante o percurso, jurando que a fruta dissipa o enjôo. Outra dica é firmar o olhar na linha do horizonte. E em último caso, eles recomendam rezar.

Alguns passageiros mais instruídos – aqueles que lêem guias de viagem – tiveram a felicidade de tomar uma pílula de Dramim 30 minutos antes da viagem. O remédio serve para precaver contra o enjôo. Dentro do barco, sofrendo, muitos pensam alto: “cadê os ambulantes quando se precisa deles?”. Será que eles não sabem que qualquer um pagaria um valor astronômico por um Dramim? Ou até por um mísero limãozinho?

Alcântara, finalmente

Depois de muito martírio, o barco finalmente atraca em Alcântara. A felicidade é geral ao pisar em terra firme. O passeio tem início com a subida da Ladeira do Jacaré, que liga o porto ao centro histórico. Caso o turista prefira abdicar do esforço da caminhada, há opções de condução em veículos motorizados ou em carroças puxadas por burrinhos.

Os caminhantes que já estiveram em Alcântara consideram a subida da ladeira uma espécie de ritual de chegada à cidade. Apesar do calor do sol equatorial, a maioria opta em seguir a pé. A caminhada é feita em passo lento, sem pressa. É este o ritmo de Alcântara, uma vila parada no tempo. Ali, relógios servem apenas para enfeitar os pulsos. O passeio segue sobre as ruas de pedra ladeira acima. Pouco a pouco o visitante começa a esquecer a travessia de barco e a se encantar com os antigos casarões e seus moradores debruçados sobre as janelas de madeira. Os residentes, a maioria descendentes de escravos, observam quem chega e trocam sorrisos e olhares.

Ao alcançar o topo da ladeira, o caminhante se depara com uma Alcântara ainda mais bela. Surgem praças tranqüilas e bem cuidadas. Ao lado de uma igreja secular, dois sinos de tamanhos diferentes, um deles trazido de Portugal no século XIX, convidam o turista a seguir uma tradição: caso deseje se descasar, ele deve badalar três vezes o sino maior, se optar pela continuidade do casamento, deve badalar duas vezes o sino menor.

A história do vilarejo

O vilarejo de Santo Antônio de Alcântara foi fundado pelos portugueses em 1648. Antigo reduto da aristocracia rural maranhense, a vila viveu seu apogeu no século XVIII. Durante o período colonial brasileiro, os barões regiam a economia baseada inicialmente no plantio de cana e, décadas depois, no cultivo de algodão. Alcântara entrou em decadência na segunda metade do século XIX com a recuperação do cultivo algodoeiro nos EUA após a Guerra de Secessão. Anos depois, com o fim da escravidão, a cidade se viu praticamente abandonada.

Com o declínio econômico de Alcântara, a Igreja Matriz teve que ser fechada. Hoje, mais de um século depois, o conjunto de suas ruínas é o principal símbolo da cidade. O título de Patrimônio Histórico Nacional, obtido em 1948, ajuda a preservar os vestígios de uma cidade que já foi muito rica. Ao lado das imponentes ruínas, há o pelourinho onde os escravos eram castigados. Seguindo adiante, notam-se casarões com janelas largas a observar o oceano, uma estratégia adotada para defender Alcântara de eventuais invasões estrangeiras.

O Doce de Espécie

Além das ruínas da Igreja Matriz, Alcântara também é conhecida pelos deliciosos doces-de-espécie. A guloseima se assemelha a um bombocado e tem o tamanho e o formato de uma tartaruguinha. O doce-de-espécie se tornou uma tradição de Alcântara quando passou a ser distribuído pelos moradores locais durante a Festa do Divino. A receita, somente encontrada na cidade histórica, foi herdada dos açorianos que, diferentemente dos portugueses, vinham para o Brasil com o intuito de fixar residência.

O Doce de Espécie

O turista, ao caminhar pela cidade, logo nota a presença de muitos meninos carregando tupperwares. Ao se aproximarem, eles mostram o que há dentro dos recipientes: maravilhosos docinhos-de-espécie, todos decorados com um laço feito da massa usada na receita. Os garotos contam que as mães fazem os doces diariamente. Tão logo as guloseimas saem do forno, eles correm para as ruas, para que os turistas possam prová-las ainda quentinhas.

Na rua das Mercês, número 401, está a moradia e a pequena loja de Antônio. Foi ele quem pensou em fazer os doces-de-espécie ao longo do ano, e não somente durante a época da Festa do Divino. Com a idéia, Antônio passou a destinar um canto de sua residência para comercializá-lo. Mais de três décadas depois, não há quem visite Alcântara e não se delicie com os docinhos.

Com o cair da tarde, os turistas se deslocam de volta ao porto. A maioria desce a ladeira do Jacaré contente com o dia de passeio em Alcântara. Ninguém sente culpa pelo exagero nos doces. Afinal, foram muitas calorias perdidas subindo e descendo as ladeiras. E a cartelinha de Dramim comprada numa das farmácias da cidade é a garantia de que a volta será nada além de um belo passeio pela baía de São Marcos.