O lento despertar da beleza
É impossível prever a dimensão do impacto visual do Parque Nacional dos Lençois Maranhenses sobre quem o visita pela primeira vez. O passeio começa como qualquer outro. Por volta das duas da tarde, a jardineira deixa a agência de turismo para apanhar os turistas agendados nas suas respectivas pousadas.
O transporte é uma espécie de jipe com carroceria adaptada e tração nas quatro rodas. Sem ele, não há como alcançar o Parque Nacional, distante cerca de 20 km de Barreirinhas. Os turistas, empolgados, se aconchegam nos bancos enquanto passam filtro solar ou ajustam as câmeras fotográficas. Nas agências de turismo, eles podem optar entre dois passeios: um que sai pela manhã e o outro à tarde. A maioria decide pela segunda opção, por incluir o pôr do sol.
Ao alcançar o Rio Preguiças, a possante jardineira sobe em uma balsa que irá atravessá-la para a margem oposta. Do outro lado do rio, a aventura se reinicia. Não demora muito até a estrada de terra se tornar uma apertada trilha de areia fofa. Aqueles cujos assentos estão sobre as rodas se divertem como crianças num pula-pula, aproveitando o picar do jipe na areia. Ao perceberem que a brincadeira não chega ao fim, os coitados passam a segurar nas barras da carroceria e a tomarem cuidado para não machucar o osso cervical. Com certeza, para eles, uma almofada seria bem vinda.
Depois do pula-pula, a jardineira entra em um trecho alagado. Enquanto todos se assustam com a possibilidade de atolar, o motorista não mexe um músculo do rosto e segue adiante sem pestanejar. A água empoçada cobre a roda quase por inteiro. Mas nada consegue deter a possante jardineira, sejam os montes fofos de areia ou os riachos que cruzam o caminho. Nesse ponto do passeio, é possível afirmar que não existe a possibilidade de turistas “mão-fechada” alcançarem o parque em carro particular. Se insistirem em economizar, logo estarão pedindo arrego ou esperando pelo guincho.
O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses
O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, criado em 1981, é o maior dos parques nacionais do nordeste. Com 155 mil hectares, sua área é maior que a cidade de São Paulo. Conhecido também pelo nome de Grandes Lençóis, o parque está na margem esquerda do Rio Preguiças, possui clima quente semi-úmido e média anual de 26ºC. Apesar de ter mais de 70 Km de praias desertas, foram suas dunas e lagoas de águas cristalinas que o tornaram conhecido.
A imensidão do parque, com dunas de areia que se estendem até a linha do horizonte, criou a falsa impressão de se tratar de um deserto. Enquanto o índice pluviométrico anual dos Lençois é de cerca de 1.600mm, nas regiões desérticas a precipitação é inferior a 250mm. Chove no parque trezentas vezes mais que no deserto do Saara. A palavra “deserto” é usada para designar uma região árida e despovoada. Apesar de ser um local desabitado, os Lençóis Maranhenses não se incluem nesse conceito. E sem o alto índice pluviométrico, sua principal característica – as dunas intercaladas com lagoas – jamais existiria.
As imensas dunas de areia
Após cerca de trinta minutos de viagem, a jardineira finalmente estaciona ao lado de uma imensa duna. Dali em diante, todos devem seguir a pé até às lagoas. O guia da excursão avisa não ser necessário carregar chinelos e sandálias, já que a areia é fria apesar do sol escaldante. Todos desconfiam da afirmação, mas ao pisarem descalços no chão se deliciam com a sensação de frescor entre os dedos.
O grupo inicia a escalada da imensa duna. Um dos membros é Alexandre, um carioca que carrega uma prancha debaixo dos braços. É com ela que irá realizar um dos seus sonhos: surfar pelas dunas dos lençóis até mergulhar numa lagoa morna de águas claras. Um outro integrante do grupo limpa a lente de sua câmera sem parar. O vento de areia é motivo para estragar fotos de um lugar tão fotogênico.
É preciso ter uma boa condição física para escalar as dunas. Muitas ultrapassam os vinte metros de altura. Algumas, mais de quarenta. Mas ao chegar ao topo da primeira duna, a beleza compensa. O fôlego que já era escasso fica ainda menor diante da paisagem exuberante. Talvez o nome do parque esteja associado à beleza singela de lençóis brancos secando em um varal, ondulando com a força dos ventos. A paisagem é alvíssima. Montes e mais montes de areia. Cada um com formato e tamanho diferente. A emoção diante de tanta beleza é comparável à primeira viagem de avião. Ou ao instante em que se aterrissa em terra estrangeira. Tudo parece ser tão simples e, por isso, tão belo.
Depois de alguns minutos boquiabertos, os turistas seguem adiante. Caminhando sobre a areia fria, o vento recheado de grãos de areia bate nos tornozelos. Ao olhar para trás, nota-se que as pegadas deixadas na areia a menos de um minuto já desapareceram.
Alexandre segue na frente do grupo. Por um instante ele pára, admira algo. Não demora muito até que colocar sua prancha no chão. É hora de realizar seu sonho. No topo de uma imensa duna, com uma lagoa esverdeada no sopé o convidando para um mergulho, ele decide ser hora de surfar. Alexandre se prepara. Sem titubear, desliza montanha abaixo, ziguezagueando até explodir de prazer ao alcançar a água morna da lagoa.
Verão e Inverno
Nos Lençóis, a temporada de chuva vai de dezembro a meados de maio. Esta época chuvosa é considerada o inverno maranhense. Os demais meses do ano, época de seca e altas temperaturas, é o verão. Nos Lençois, as lagoas começam a se encher por volta de março. Em outubro, elas alcançam sua plenitude de cheia. Na seca, o número de lagoas diminui, ficando menos caudalosas, mas ainda assim são encantadoras.
Mergulhar nas lagoas de tonalidades azul-esverdeadas não serve apenas para refrescar o corpo, mas também a alma. O sentimento é de leveza. Nadar nas águas dos Lençóis é como flutuar. Dentro d’água, peixinhos nadam perto do corpo dos turistas, sem medo. O desejo de todos parece ser o mesmo: congelar o tempo.
Um pôr do sol inesquecível
Na hora de retornar à jardineira, o sentimento é de tranqüilidade. O ritmo da caminhada varia de grupo para grupo conforme o deslumbramento de cada um. Até mesmo os guias turísticos, já acostumados com os Lençóis, não se cansam da paisagem. Eles contam que a cada dia há algo de novo: “tem hora que as lagoas têm com cor escura. Instantes depois, estão claras, cristalinas. As dunas crescem. Depois diminuem”. Com o sol perto do horizonte, todos se assentam na areia. Com o passar do tempo, as nuvens ganham cores róseas. As dunas se tingem de dourado. O silêncio impera. Ninguém diz nada. Todos estão absortos ante a beleza da paisagem.
No Parque Nacional dos Lençois Maranhenses, a areia está sempre se movendo. O vento não pára de trabalhar. Sempre moldando a paisagem. É incansável ao varrer as dunas, penteando-as em um estilo diferente a cada entardecer. As dunas se colorem com diferentes tonalidades, do branco ao dourado claro. Há dias de lagoas de azul celeste, cheias e convidativas. E dias de lagoas verde musgo, pacatas e solitárias. São muitas as facetas dos Lençois. Cabe a cada pessoa enxergar aquela que será a sua. É esta que irá permanecer viva para sempre na memória.

