A terra do Uçá

Parnaíba, a segunda maior cidade do Piauí, além de servir como base para passeios ao delta do Parnaíba, é também a capital do caranguejo-uçá. Localizada às margens do rio de mesmo nome, o município tem pouco mais de 150 mil habitantes e está a cerca de 350 km de Teresina.

Se hoje a economia de Parnaíba depende quase que exclusivamente do setor público, há tempos atrás o município já foi sinônimo de prosperidade. Em meados da primeira metade do século 20, os armazéns ao lado do cais se abarrotavam de charque e cera de carnaúba, produtos nobres de exportação. Pela cidade, casarões serviam de abrigo a barões. Senhoras desfilavam pelos passeios de pedra sob sombrinhas rendadas. Fords bem encerados eram encontrados pelas ruas. Nos mangues, contrabandistas escondiam caixas de uísque antes de passarem pela alfândega.

Quase um século depois, ainda restam alguns vestígios da época áurea. O Complexo Turístico do Porto das Barcas preserva os casarões dos séculos 18 e 19. Tombado pelo IPHAN, é o principal ponto turístico da cidade. À noite, as ruas de pedra do Porto das Barcas são cobertas por mesas de madeira dos bares e restaurantes. Turistas passeiam pelas lojas de artesanato. Outros preferem estudar cardápios. Dentre as opções, charque desfiado com cebola, camarão à milanesa, iscas de peixe frito. Em outra área do Porto das Barcas, dois irmãos entram numa sorveteria e pedem bolas de cupuaçu e tapioca. O sorvete, combinado com a temperatura amena, colabora ainda mais para que a noite seja tão agradável.

A cata do caranguejo

No dia seguinte, as ruas de Parnaíba, tão tranqüilas durante a noite, se transformam em ponto de venda de caranguejo-uçá. Pelas esquinas do centro, senhores empilham os crustáceos em cima do asfalto a espera de clientes.

Ao lado dos vendedores de caranguejo, há uma agência de turismo. Um funcionário que trabalha no local oferece um passeio para ver a cata da principal espécie de caranguejo dos mangues parnaibanos: o uçá. Ele explica que a atividade tem grande relevância econômica para a região. No município vizinho, Ilha Grande de Santa Isabel, ela é a segunda que mais emprega mão-de-obra, ficando atrás apenas do setor público municipal.

O passeio que inclui a cata dos caranguejos sai do Porto dos Tatus, em Ilha Grande de Santa Isabel. A lancha leva dois estrangeiros, ambos italianos, Carlinhos, o guia turístico, e Zé Filho, o “homem-lama”.

Zé Filho é o responsável por demonstrar aos turistas a cata do caranguejo. Mas é o guia Carlinhos quem explica que os catadores de uçá são também conhecidos como “homem-lama”. “Ao entrarem no mangue, eles cobrem o corpo com lama, que serve como repelente natural contra mosquitos”, conta o guia. Carlinhos segue a explicação dizendo que os caranguejos são vendidos em cordas, com quatro unidades em cada uma. Em seguida, ele dita números impressionantes: “Aproximadamente 65 mil cordas de caranguejos são negociadas por semana na região. Cada uma é vendida pelo catador por 25 centavos de real. Depois de passar por vários atravessadores, o preço da corda chega a valer 10 reais em bares de praia em Fortaleza ou São Luís. É por isso que ainda há tanta pobreza por aqui”, conclui Carlinhos.

A lancha estaciona às margens do manguezal. Zé Filho desce da embarcação e começa a cobrir o corpo com lama. Em instantes, ele se transforma no “homem-lama”. Sorridente por entreter os turistas, Zé Filho conta que, além da lama, há outros tipos de repelente de mosquitos usados pelos catadores: “tem muita gente que usa fumaça de bosta seca de boi”, ele lembra. “Põem-se fezes secas dentro de um latão de alumínio furado, que é tampado e colocado sobre brasa incandescente. Instantes depois, começa a sair fumaça pelos furos. Basta cobrir o corpo com essa fumaça. Não há mosquito que queira chegar perto”.

Carlinhos explica que, em época de reprodução, entre dezembro e março, há restrições quanto à cata de caranguejos. O Ibama proíbe que caranguejos-fêmea sejam apanhados e restringe a cata a determinadas semanas durante os meses de reprodução. O guia conta que, no passado, os índios, ao catar caranguejos, somente retiravam suas pinças. Isto porque, como os demais crustáceos, a pata se regenera. Com essa atitude, nunca faltaria caranguejo no mangue.

Antes de descer do barco, Carlinhos pede a todos para calçar botas sete-léguas. Ele sugere cautela ao caminhar pelo terreno escorregadiço do lamaçal. Em terra firme, Zé Filho inicia a demonstração da cata. Ele avista um buraco em meio à sombra e ao barro do mangue. Ao enfiar o braço até o ombro dentro da toca, o “homem-lama” diz que o caranguejo é macho. “Dá para saber o sexo só de tocar nele. Pelo tamanho e pelo formato da carapaça”, revela.

Zé Filho diz ser preciso segurar o caranguejo por trás para não ser beliscado. Em seguida, retira o braço da toca e mostra um caranguejo coberto de lama. Carlinhos explica que, após retirar os uçás das tocas, os catadores os amarram em cordas e os penduram nas árvores do mangue. Seguem esse mesmo procedimento até o final do dia, quando então voltam do interior do mangue apanhando as cordas de caranguejos.

Zé Filho lava a lama do caranguejo na água do igarapé às margens do manguezal. Em seguida, faz questão de posar para fotos ao lado daquele que garante seu sustento: o uçá.

O Uçá nos cardápios de Parnaíba

Os cardápios dos restaurantes de Parnaíba oferecem inúmeras opções de preparo de caranguejo-uçá.

Nas barracas à beira das praias, nos arredores de Parnaíba, uma boa opção é o caranguejo toc-toc. O nome é devido ao barulho do martelinho usado para quebrar as patas carnudas do caranguejo, que é cozido apenas em água e sal. Ao chegar à mesa, cabe ao cliente quebrar a carapuça do crustáceo em cima de uma prancha de madeira e pinçar seus pedaços mais suculentos. Depois, basta temperar com sal e limão e pronto: o uçá pode ser saboreado junto de uma cerveja bem gelada ou uma caipirinha de fruta.

Em Parnaíba, o restaurante La Barca possui em seu cardápio inúmeras opções de tira-gostos de caranguejo. Antes mesmo da refeição principal, pode-se experimentar tanto uma casquinha de caranguejo quanto patinhas à milanesa servidas com molho rosê. Como prato principal, a recomendação também é caranguejo. O turista pode optar por um tradicional prato parnaibano: a torta de caranguejo. O restaurante Caranguejo Express oferece a iguaria. Preparada como se fosse uma fritada, com bastante carne de caranguejo, a torta é acompanhada de arroz branco e farofinha crocante.

Link Para Receita: Casquinha de Caranguejo

La Barca
Av. das Nações Unidas, 200
Parnaíba – PI
(86) 3322-2826

Caranguejo Express
Rua Quietinha Pires, 64
Parnaíba – PI

Onde Comer

La Barca
Av. das Nações Unidas, 200
(86) 3322-2826
Caranguejo Express
Rua Quietinha Pires, 64