Mateando no aeroporto
Não se assuste se, logo ao aterrissar em Porto Alegre, encontrar um gaúcho lhe oferecendo chimarrão. É o Teixeira. “Bah, tu queres provar o melhor mate destes campos do sul?”, ele oferece assim que alguém vindo de fora cruza a porta de desembarque no Aeroporto Internacional Salgado Filho. Uns agradecem, enquanto outros, os mais espertos, aceitam o convite.
Luiz Rotilli Teixeira, ou o Gaúcho do Aeroporto, como é conhecido, trabalha para uma agência de turismo. Recebe os visitantes devidamente trajado com bombacha [calça larga nas coxas e justas nos tornozelos], guaiaca [um cinto largo], lenço vermelho atado no pescoço, e chapéu. Muitos irão demorar um pouco até começar a compreender suas frases entremeadas com bás, tchês, trilegais, ou barbaridades. Antes disso, Teixeira já terá contado boa parte da história de sua paixão pela mais tradicional bebida gaúcha: o chimarrão.
O Gaúcho do Aeroporto explica que seu compromisso é “prestar informações gauchescas no desembarque de passageiros e demonstrar nossa hospitalidade. E que lugar melhor do que isso senão o ponto de chegada de todos: o aeroporto”. Luiz Rotilli Teixeira é um apaixonado pelo Rio Grande do Sul, e seu trabalho inclui um livro sobre o chimarrão – A Importância Social do Chimarrão.
O chimarrão teria surgido na Colômbia. Em meados do século XVI, foi descoberto pelos espanhóis de Assunção, no Paraguai, na região de Gruairã, junto aos índios guaranis. Dizem ainda que se tornou popular quando os desbravadores de nosso país, que estavam acostumados a grandes “borracheras” – porres memoráveis – perceberam que quando bebiam também o estranho chá de ervas indígena, a ressaca era mais amena. Dessa forma, suas propriedades benéficas começaram a ser disseminadas pelo Sul do país. Além de estimulante das funções digestivas, atua muito bem em relação ao coração, à pressão arterial e à circulação sanguínea.
“Muitos acham que o chimarrão é apenas uma bebida preparada com erva-mate e sorvida por uma bomba metálica em uma cuia de porongo. Esta é uma definição correta, mas ele é bem mais que isso”, conta o Gaúcho. Para os turistas de outros estados, é necessário até mesmo aprender um vocabulário específico sobre a bebida. Teixeira explica que “cevar, ou matear, é a palavra que corresponde ao ato de preparar o chima [o chimarrão]. Porém, tenha cuidado, pois um enchedor [aquele que prepara o mate] pode querer lhe enganar e servir um lavado [um chimarrão feito com erva-mate já usada várias vezes]. E aos domingos, não fique embasbacado ao ver gurias e piás [crianças], com um termo [garrafa térmica] debaixo do braço, mateando pelas ruas da cidade. E se num dia de calor, um gringo lhe oferecer um tererê, saiba que este é o chimarrão gelado, muito popular no Paraguai”.
Enquanto se acostuma com o linguajar do Gaúcho do Aeroporto, o turista deve evitar cometer sacrilégios ao tomar o chimarrão pela primeira vez. Jamais diga que é anti-higiênico, e beba tudo até o final. Senão o sangue de Teixeira pode subir à cabeça e ele vai querer chamar um primo da fronteira para cuidar de ti. “Bá. Quem tu pensas que é? Um Magal? (nome dado ao sujeito mal arrumado que se acha o máximo)”. Minutos depois, Teixeira inicia o ato de matear. Enquanto isso, conta que o chimarrão é um costume inventado pelos índios e que funciona como um cachimbo da paz, passado de mão em mão. “A prática de apreciar o chimarrão é aprendida em casa, tem um espírito familiar, pois é sorvido pausadamente. E, além disso, com a cuia na mão, fica muito mais fácil conversar sobre futebol ou política”.
Convencido de que o chimarrão é um grande companheiro psicológico dos gaúchos, o turista recebe a cuia das mãos do Gaúcho. A primeira sorvida deve ser dada lentamente. Assim, é possível identificar a temperatura da água e acostumar a boca ao característico amargor da bebida.
Caso o turista pergunte a Teixeira qual o melhor lugar para comprar uma cuia, ele irá responder que é possível achá-la em todos os cantos da cidade. Mas irá também recomendar uma visita ao Brique da Redenção, no Parque Farroupilha, aos domingos de manhã. “Lá, tu vais ver tudo que é gente com um termo debaixo do braço, mateando enquanto procuram por uma peça de antiquário ou algo para suas coleções de selo, moeda, xícara de café ou dedal”.
O Gaúcho conclui que caso o visitante queira mesmo levar uma cuia para casa e preparar um chimarrão, é necessário inicialmente curtir a cuia preenchendo-a com erva-mate pura ou misturada com cinza vegetal – para dar mais resistência ao porongo – e água quente. Ela deve descansar por dois ou três dias antes de ser enxaguada com água quente. Depois, Teixeira ensina que jamais se deve usar água fervente no chimarrão, e sim numa temperatura em torno de 70 graus Celsius. Para fazer o mate, preencha 2/3 da capacidade da cuia com erva-mate.
Tape então, com a palma da mão, o orifício da cuia, e incline-a de modo que a erva ocupe metade desta. Retire, lentamente, a mão para que a erva não desmorone e, com a cuia ainda inclinada, preencha-a com água quente até sua extremidade. Aguarde a erva absorver a água e, em seguida, insira a bomba na cuia com o dedo no bocal. Finalmente, despeje água quente mais uma vez e inicie a roda de chimarrão com os amigos. “Bá, tchê, já ia esquecendo de te dizer: o primeiro mate é chamado de veneno do mate e deve ser cuspido, ou sorvido de supetão, por ser mais amargo que o usual. Mas não se preocupe; o segundo gole vai ser trilegal”.
A chegada de um novo vôo é anunciada. É hora de Teixeira se despedir do grupo de turistas, para recepcionar os que acabam de chegar. E novamente contar a história do chimarrão, um instrumento que tanto estimula a conversa entre amigos quanto presta ajuda aos solitários.
Dicas para obter um chimarrão correto e esterilizado
- A bomba deve ser, de preferência, feita de alpaca ou prata, sendo que o bocal deve ser banhado a ouro.
- A cuia e a bomba devem ser escaldadas e enxutas antes de iniciar a preparação do mate.
- Nunca aproveite a erva de um dia para o outro.
- O número de pessoas em uma roda de chimarrão não deve ser em número grande, no máximo seis pessoas.
- Para que uma roda seja autêntica, só pode haver uma cuia rodando de mão em mão.
- Alguns mateadores costumam, em lugar de água, cevar a erva com cachaça, pois esta consegue extrair ao máximo o sabor da erva-mate sem que fique o gosto do álcool. Mas a cachaça é só para iniciar o mate. Depois, deve-se ir abastecendo a cuia normalmente com água quente.
- Quando chega alguém a quem se deseja prestar consideração, um novo mate deve ser feito em sua homenagem.
- O responsável em cevar o mate deve ser alguém calmo e paciente.

