O mercado de peixes

Visitas a mercados de peixes em qualquer lugar do mundo devem acontecer bem cedo. Em Manaus, essa regra não poderia ser diferente. Por isso, separe uma noite de descanso e, antes de dormir, crie coragem para programar o despertador para as cinco e meia da manhã. “O quê? Acordar cinco e meia?”, pode questionar um companheiro de viagem mais preguiçoso. “E para ver peixe?”. Bem, se a pessoa for daquelas que gostam de dormir até meio-dia, com máscara escura e tampão no ouvido, então, diga que, dessa vez, vai abrir uma exceção e permitir que durma até as seis. Mas se ainda assim resmungar, então a deixe para trás e diga que irá perder um dos programas mais extraordinários da capital do Amazonas.

O mercado de peixes de Manaus está localizado num imenso galpão às margens do rio Negro, ao lado do Mercado Adolpho Lisboa. Antes mesmo dos primeiros raios solares, o movimento ao redor do mercado já é intenso. Do lado de fora, junto ao cais, barcos e mais barcos esbarram uns nos outros. Todos procuram espaço para atracar. Na rua, homens circulam com enormes peixes sobre o ombro. Outros carregam peixes menores em caixas de madeira sobre a cabeça. Pescadores recolhem e dobram as redes, lavam o barco, salgam a pesca. Há kombis que descarregam sacos de gelo. Caminhões que esperam a chegada da carga de peixes. Antes mesmo de entrar no mercado, já se percebe o quanto esse passeio é rico ao oferecer uma amostra singular da fauna humana, seja através das inúmeras variantes da personalidade individual ou do papel que cada um exerce em busca do objetivo comum de vender o peixe.

A importância do rio

O rio tem papel fundamental na vida da maioria dos manauaras. Além de servir como estradas para a população se deslocar de um local a outro, ele é também a fonte de sustento de muitas famílias. Pescadores ou comerciantes, ribeirinhos ou tribos indígenas, todos sabem o quanto é importante respeitar e conhecer as águas que os circundam.

Os manauaras sabem que os rios de água barrenta são aqueles que têm mais peixes. A explicação é porque esses rios, por correrem rápido, recolhem sedimentos argilosos ao longo do caminho, e assim possuem águas “adubadas”, ou seja, ricas em cálcio, potássio, sódio, magnésio e outros metais. Essas características são as ideais para a presença de peixes. Outra explicação é que as cabeceiras de rios como o Solimões estão nos Andes, local que apresenta riqueza de minerais no solo.

Já o rio negro, um rio escuro, nasce em águas cristalinas pobres em cátions. As águas do Negro, por não possuir sedimentos em suspensão, são ácidas e de pouquíssima fertilidade. Por isso é um rio escasso em microfauna, com pouco alimento para os peixes. Em compensação, seus arredores possuem também escassez de mosquito, o que foi fundamental na decisão de construir a maioria dos hotéis de selva às margens do rio Negro.

Pesquisas sobre peixes na Amazônia divergem entre si ao numerar a quantidade de espécies existentes na região. Se alguns afirmam haver mais de 1.200 espécies catalogadas, outros concluem que o número gira ao redor de duas mil espécies. E há ainda as afirmações de que a quantidade de espécies, catalogadas ou não, é de aproximadamente 3.000 peixes. Mas por haver pescadores envolvidos na história, o melhor é afastar as desconfianças e concluir que na bacia amazônica há espécies suficientes para garantir anos de trabalho para quem queira identificá-las.

Dentro do mercado

Ao entrar no mercado de peixes, um peixeiro se aproxima com uma imponente piranha de mandíbula saliente e dentes afiados. “Não precisa assustar não. Ela já está morta”, debocha. “Só quero que tire uma foto minha ao lado dela”. A proposta é aceita. O peixeiro posa fazendo cara de sério. Depois de fotografado, ele volta a sorrir e devolve sua piranha à bancada de peixes.

Após a foto de boas-vindas, nota-se a imensidão do mercado de peixes. Há fileiras e mais fileiras de corredores. Cada um repleto de peixeiros vestidos de avental branco e munidos de facas, afiadores e uma balança para pesar a pesca. Do alto do teto, pende sobre cada bancada um fio com uma lâmpada na ponta. Junto a cada bancada, há ralos para escoar a água misturada com o sangue dos peixes. Há também caixas de isopor que guardam as espécies mais nobres. Cobertas de gelo, costumam ser encomendas dos clientes mais fiéis.

Um imenso peixe descansa em sonho eterno sobre uma bancada. Mesmo morto, ainda atrai a atenção de muitos. Afinal ele é o pirarucu, o maior peixe de escamas da Amazônia. De perto, percebe-se que suas escamas têm detalhes de vermelho nas pontas; parecem até ter sido pintadas por alguém. No rosto, há desenhos que lembram tatuagens indígenas. Talvez por isso, o pirarucu seja um dos peixes mais presentes nas lendas e histórias de índios e ribeirinhos.

Adentrando-se pelo mercado, com os sentidos já acostumados ao cheiro onipresente do local, percebe-se que o caos é apenas uma impressão subjetiva de quem visita o mercado pela primeira vez. Se o calouro se sente nauseado com o vai-e-vem de homens esbarrando uns nos outros, lavando o chão repleto de tripas de peixes ou removendo escamas sem parar; esse é um problema exclusivamente dele. Para os peixeiros, manter sua rotina de trabalho inalterada é o maior respeito que podem oferecer aos visitantes.

No mercado, muitos dos trabalhadores são pais ou filhos de pescadores. Enquanto um pesca, o outro vende. Por isso, é grande o conhecimento sobre as águas amazônicas, seus peixes e suas crenças. Um dos peixeiros conta ao filetar um peixe que muitos preferem a carne de espécies jovens, não somente por causa da carne mais tenra e saborosa, mas também por acreditarem nas lendas que ouvem desde crianças. Uma delas conta que peixes adultos cujos nomes começam com “pira” (como, por exemplo, pirarucu, piraíba, ou piramutaba) prejudicam o sangue e são transmissores de doenças de pele.

Com pouco tempo, já é possível identificar alguns peixes comuns a várias bancas. Há o tambaqui, largo e arredondado, o tucunaré com sua mancha na cauda, o pequeno jaraqui, a dourada e seu bigode característico, e assim por diante. Muitos dos peixeiros são simpáticos, não se incomodam de dar explicações sobre as espécies à venda. Outros ensinam como prepará-lo: “o tucunaré é bom em caldeiradas; o tambaqui deve ser feito no espeto sobre a brasa; o jaraqui, por ter muitos espinhos, tem que ser frito, e o pirarucu é bom de qualquer jeito”.

Prosseguindo o passeio, uma cena demonstra a solidariedade entre os peixeiros. Um deles sobe em cima da bancada. Olha para um lado, para o outro, e dá um berro para chamar um colega. Este se aproxima para ouvi-lo. “Você tem tambaqui aí,para atender minha freguesa?” É a vez do outro gritar, pedindo a seu ajudante que traga alguns peixes para socorrer o concorrente, ou melhor, o companheiro de profissão.

E assim segue a vida no mercado…