O fascínio por sanduíches diferenciados
Os porto-alegrenses, mesmo sem se esforçar para isso, acabam se mostrando como parte de um mundo bem diferente daquele com o qual estamos acostumados. Mesmo no dia-a-dia, ao preparar um mero sanduíche, eles acabam inventando algo sutil, melhorando aquilo que já era bom. E caso eles não consigam mudar o sanduíche em si, pelo menos o batizam com um novo nome. Este é o caso, por exemplo, do tradicionalíssimo misto quente, que na capital gaúcha é chamado de torrada americana. Já o primo pobre do misto, o queijo quente, é conhecido por torrada simples.
O Sanduíche Aberto da Caverna do Ratão
O sanduíche foi inventado pelo lorde Montagu (1718-1792), o conde de Sandwich, numa pequena cidade no Sudeste da Inglaterra. Viciado no jogo de cartas, o lorde, acabou pegando duas fatias de pães e colocando seu almoço – algumas fatias de rosbife – no meio. Assim, poderia continuar jogando ao almoçar.
Em Porto Alegre, o principio básico do sanduíche – ter justamente algo entre duas fatias de pão – foi modificado. Criou-se o sanduíche aberto. Na Caverna do Ratão, a invenção dos gaúchos é preparada da seguinte forma: fatias de pão de centeio cortado em quatro, cobertas com pernil, picles, tomate, cenoura marinada, e fatias de ovo cozido. Um molho de carne quente é servido junto, para ser regado sobre o sanduíche aberto.
O nome Caverna do Ratão, uma choperia que funciona desde 1955, deve-se ao fato de que seu antigo proprietário, o senhor Aristides Saldanha, costumava chamar todo mundo de Ratão. Hoje, Vera, filha de Seu Aristides, é quem cuida do local. Os clientes que lotam usualmente suas 13 mesas podem ainda provar tradicionais croquetes recheados ou bolinhos de bacalhau, estes somente às terças e quintas.
O Bauru do Trianon
De acordo com muitos porto-alegrenses, o melhor e mais tradicional bauru da cidade é encontrado no Trianon. O endereço original, na avenida Protásio Alves, funciona desde 1962, mas hoje há outras filiais espalhadas pela cidade. E há também a possibilidade da tele-entrega – os gaúchos, felizmente, preferem evitar a palavra delivery – do bauru.
O sanduíche bauru dos porto-alegrenses é, evidentemente, diferentemente do bauru de Bauru, no estado de São Paulo. Se neste, o mesmo consiste apenas de presunto, queijo, tomate e talvez alface, no Trianon, ele é feito num pão chamado cervejinha (sabe-se lá o porquê desse nome, uma vez que não há cerveja em seu preparo) ou bundinha (por ser parecido com uma) – bife de contra-filé, duas fatias de queijo, alface e tomate. Por R$0,30 a mais, o bauru recebe também um ovo frito.
O cachorro-quente do Rosário
O cachorro-quente é de origem alemã. Tanto lá quanto nos EUA, é apenas uma salsicha num pão cortado ao meio, longitudinalmente, e coberta com catchup ou mostarda. No Brasil, para o gosto de muitos, o cachorro-quente deu uma incrementada e inventou um molho de tomate e maionese para deixar o sanduíche menos seco. Os porto-alegrenses foram ainda além e, ao invés de uma, decidiram colocar duas ou três salsichas dentro do pão.
Antigamente, o carrinho de cachorro-quente era conhecido como Cachorro do Bambi. Os gaúchos se recusaram a comer num lugar com esse nome e o batizaram de cachorro-quente do Rosário. O sanduíche, porém, é servido num pão que os gaúchos chamam de cacetinho. Pode ter duas ou três salsichas, ou uma lingüiça, e é acompanhado de molho de tomate, queijo ralado, ervilha e, no final, seu toque especial: azeite.
O colégio do Rosário se tornou referência na cidade. Não por causa de seus alunos, e sim porque na sua esquina está o mais tradicional carrinho de cachorro-quente da cidade. O ato de enfrentar a enorme fila para comer o cachorro-quente do Rosário faz parte da memória nostálgica de muitos. Apesar de o carrinho estar há anos exatamente no mesmo lugar, alguns senhores de idade insistem que hoje a fila para comprar o sanduíche deu uma boa encurtada. E que também não há mais congestionamento para estacionar o carro. Ou seja, não é tão bom quanto era antigamente.

