O gaúcho da copa na churrascaria

Existe uma grande probabilidade de você já ter visto Clóvis Fernandes. Nem que tenha sido pela televisão. Ele é conhecido como “O Gaúcho da Copa”, e seu rosto costuma aparecer em jogos da seleção brasileira. O bigode característico, a camisa amarelinha e uma réplica perfeita da taça que Dunga levantou na conquista do tetra compõem sua marca registrada. E como todo bom gaúcho, consegue conquistar pessoas de diferentes culturas, convidando-os para comer um churrasco ou tomar um chimarrão.

Em Porto Alegre, onde mora, ao entrar em qualquer churrascaria, é logo reconhecido. Instantes depois, os garçons já estão folheando os álbuns de fotografias que documentam seus encontros com celebridades em mais de 30 países, ou pedindo para segurar a taça do tetra. Clóvis conta que a primeira frase que faz questão de aprender no estrangeiro é: “Cuidado. É pesada”, pois sabe que todos vão pedir para segurar a taça.

Enquanto conta suas histórias, Clóvis mantém o olhar fixo numa costela que assa em fogo de chão há várias horas. Ele conta que uma das grandes paixões dos gaúchos, além do futebol, é a costela de boi. O gaúcho dá a dica de que a costela deve ser assada bem lentamente. E acrescenta: “ao escolher, deve-se optar sempre por aquelas com ossos pequenos e arredondados, que indicam animal novo”.

Na sua primeira Copa, em 90, na Itália, conseguiu ingressos para os jogos do Brasil graças a um churrasco que preparou. O Gaúcho da Copa conta que a idéia de acompanhar a seleção brasileira, difundindo pelo mundo a cultura gaúcha, surgiu quando, por acaso, assistiu pela televisão a um programa sobre as cidades-sede do mundial da Itália. “Bá, ali eu senti alguma coisa, como se eu já tivesse estado naquelas cidades que via pela telinha”.

Ele conversou com sua esposa Débora que o incentivou a ir atrás de seu sonho. “Cheguei na Itália sem um ingresso sequer e com pouco dinheiro no bolso, mas logo que entrei em um banco italiano, vestido com a camisa do Grêmio, um funcionário se aproximou e disse que havia morado em Porto Alegre. Ficamos amigos e combinamos um churrasco. Dias depois, junto de um suculento pedaço numa churrasqueira, conheci um monte de figurões italianos e consegui meus sonhados ingressos”. Foi nessa época que, mesmo apesar da prematura eliminação da seleção brasileira, o gaúcho decidiu que, dali em diante, sempre acompanharia o Brasil durante as demais Copas do Mundo.

“Traz mais duas cevas” – o apelido carinhoso pelo qual os gaúchos chamam a cerveja -, pede Clóvis ao garçom. “Vamos servir?”. E o simpático gaúcho se levanta e caminha até o buffet com iguarias campeiras como quibebe – ou guisado de abóbora -, feijão virado e arroz de carreteiro. A seguir, pede ao garçom para levar picanha à mesa. “Ei tchê, aqui em Porto Alegre tem churrascarias de tudo que é tipo: especializadas em costela, com buffet de comida campeira, outras que tem serviço de espeto corrido – o conhecido rodízio. Há ainda as casas de filé, as parrillas aos moldes uruguaios, as especializadas em fogo de chão e ainda aquelas que servem grelhados numa tábua de madeira. Ou seja, dá para satisfazer a todos os guris que vem de fora”.

Clóvis, saboreando uma suculenta picanha mal-passada, conta que a paixão do gaúcho pela carne é tamanha, que é comum ver algo que não acontece em outros estados brasileiros. Na capital gaúcha, é natural que um casal vá a uma churrascaria de espeto corrido (o famoso rodízio, como é conhecido no resto do país) logo no primeiro encontro. É possível ver também patricinhas emperiquitadas, senhoras de idade conversando sobre a novela das oito, duas amigas solitárias atrás de um bom partido, avós e netos, casaizinhos apaixonados; e todos se deliciando com uma baita de perna de cordeiro ou uma alcatra mal-passada. “Porque aqui no Sul, carne mal-passada é aquela que leva só um susto na grelha. E a carne bem-passada corresponde à carne no ponto. Afinal, não gostamos de servir aos nossos hóspedes uma carne parecida com sola de sapato”.

Realmente, em Porto Alegre há gosto para tudo. Se um turista procura saborear um cordeiro-mamão – nome dado ao cordeiro abatido em fase de amamentação – deve conhecer o restaurante Barranco ou o Portoalegrense. No primeiro, o cliente pode na área externa, debaixo de um jacarandá, ou numa sala com ar-condicionado, pedir uma porção de polenta fininha e crocante para acompanhar o cordeiro que virá em cima de uma tábua de madeira. No Barranco, há ainda como opção de guarnição, uma salada servida em um tradicional carrinho que fica circulando por entre as mesas. Já no Portoalegrense, o cardápio a la carte, além do tradicional cordeiro, inclui uma lingüiça caseira e uma salada de radicce –ou almeirão – com bacon.

Há também o filé do Santo Antônio, que funciona desde 1935 no mesmo local. Os proprietários se orgulham de terem construído um dos restaurantes mais antigos do estado, que nunca saiu das mãos da família. A especialidade da casa é o filé preparado das mais diversas maneiras: com molho de natas, mostarda, acompanhado de alho frito, ovo ou aspargos, podendo ser recheado com presunto e queijo ou não.

O Mercado Del Puerto é uma churrascaria ao moldes de uma parrilla uruguaia, com uma enorme grelha no meio do salão, onde são preparados desde miúdos de boi até pimentões, cebolas e batatas que servem de guarnição para diversos cortes de carne. Há ainda um ótimo alfajor de sobremesa.

Já entre as tradicionais churrascarias que servem em sistema de rodízio, ou espeto corrido, são muitas as escolhas. Há as churrascarias Fogo de Chão, Na Brasa, Montana Grill, Vitrine Gaúcha, Sulina Grill, todas com espetos de cortes diversos circulando em ritmo frenético.

Demonstrando sua satisfação com a textura da costela que assava há horas, o Gaúcho da Copa, conta que há ainda que se considerar as sobremesas. As mais tradicionais servidas em churrascarias são a ambrosia, o pudim de leite e o sagu com creme. Mas antes da sobremesa, enquanto espera a carne assentar no seu estômago, conta que já está planejando sua viajem para a próxima Copa. “Dessa vez, vou levar muita carne e feijão. “Na França, preparamos um churrasco na margem do rio Sena e um guarda inventou de estragar a festa. Na Alemanha, espero que isso não aconteça. As relações entre a Alemanha e o Rio Grande do Sul sempre foram estreitas”, observa, referindo-se aos mais de 3 milhões de descendentes de alemães espalhados pelas inúmeras cidades de traços germânicos no estado.

Clóvis Fernandes é hoje responsável pelo “Gaúchos na Copa”, organização turística que leva os gaúchos para assistir aos jogos da próxima Copa do Mundo, e funcionário do Estado do Rio Grande do Sul encarregado do difundir a cultura gaúcha no exterior. Seja através de seu bom humor, simpatia e cordialidade, Clóvis conquista todos por onde passa. Até mesmo Ricardo Teixeira, presidente da CBF, lhe fez elogiosa confidência: “O Teixeira me disse que eu era um tremendo de um pé quente. Afinal, eu e minha cuia de chimarrão já acompanhamos a seleção em três finais de Copa do Mundo, além de ter assistido a conquistas de títulos contra a Argentina na Copa América em 2004 e na Copa das Confederações em 2005”. Realmente, os brasileiros devem continuar esperando que Clóvis, o Gáucho da Copa, continue sempre ao lado da seleção brasileira, onde quer que ela vá.

Onde Comer

Barranco
Av. Protásio Alves, 1578 - Bairro: Petrópolis
(51) 3331-6172
Portoalegrense
Av. Pará, 913 - Bairro: São Geraldo
Santo Antônio
Rua Dr. Timóteo, 465 - Bairro: Floresta
(51) 3222-3130
Mercado Del Puerto
Av. Cairu, 1487 - Bairro: São João
(51) 3337-1066
Na Brasa
Rua Ramiro Barcelos, 339 - Bairro: Floresta
(51) 3225-2205
Montana Grill
Av. Beira Rio s/n° - Bairro: Praia de Belas
(51) 3232-7622
Vitrine Gaúcha
Av. Frederico Mentz, 1561 (Shopping DC Navegantes) - Bairro: Navegantes
(51) 3374-5474
Sulina Grill
Rua 24 de outubro, 1585 - Bairro: Auxiliadora
(51) 3019-5145
Fogo de Chão
Av Cavalhada, 5200 - Bairro: Cavalhada
(51) 3248-3940