O peixe na taquara da Ilha da Pintada

Vários porto-alegrenses ainda se mostram em dúvida quando perguntados se o Guaíba é um rio ou um lago. Mas resposta é: nem um nem outro. O escritor Luis Fernando Veríssimo, um ilustre morador local, explica que a cidade “vive à beira de um rio que não é um rio. O Guaíba é um estuário, ou como quer que se chame essa espécie de ante-sala onde cinco rios se reúnem para entrar juntos na Lagoa dos Patos. Mas todos o chamam de Rio Guaíba”.

O que se sabe é que a melhor forma de contemplar uma cidade banhada pelas águas é avistá-la da margem oposta. Se Manhattan, em Nova Iorque, é ainda mais linda se avistada do Brooklyn, o mesmo pode ser dito de Porto Alegre quando avistada da Ilha da Pintada.

Um programa ideal para aqueles que desejam conhecer a Ilha da Pintada é um passeio de barco que acontece aos domingos. O barco Sinval sai pontualmente às 12:30 do píer na Usina do Gasômetro. A responsável pelo barco e pelo passeio é a Dora. É ela também que conta um pouco sobre a história do local de embarque. A Usina do Gasômetro foi uma antiga termoelétrica da cidade, inaugurada em 1928, que gerava eletricidade a partir da utilização de carvão. Em 1974, ela foi desativada e, desde 1991, se tornou um centro cultural. Sua característica mais marcante é a chaminé de 107 metros de altura.

Depois de navegar 30 minutos pelas águas do Guaíba, admirando a cidade de Porto Alegre vista de frente, Dora atraca o barco Sinval na Ilha da Pintada. Logo percebe-se que a ilha é pacata. O local abriga vários barcos de pescas, pequenos e coloridos, e é conhecida por sediar uma colônia de pescadores. Num canto da ilha, um senhor de idade pesca sob a tranqüilidade de uma árvore. Nas ruas, crianças andam de bicicletas.

Um dos passageiros do Sinval é Pedro, um mineiro que está em Porto Alegre estagiando num hospital da cidade. Esta é sua primeira vez na Ilha da Pintada, diferentemente de um outro passageiro, Wilmar, que já a visitou inúmeras vezes. Ao perceber que Pedro é de fora, Wilmar se aproxima e pergunta de onde ele vem. “Belo Horizonte”, responde. “Atlético ou Cruzeiro?”, é a segunda pergunta. Pedro responde ser atleticano e é obrigado a ouvir um sarro de Wilmar: “Barbaridade. Tu estás encrencado. A turma que está por lá – Rodrigo Fabri, Tite e sua comissão técnica – foi quem levou o Grêmio para a segundona. Eu, que sou Colorado, agradeço muito a eles por terem me feito essa dádiva”, debocha. Pedro aceita a gozação e acompanha Wilmar até o galpão onde é servido um tradicional peixe na taquara, um local com ares nostálgicos dos refeitórios de colégios públicos no interior.

Nos fundos do refeitório, estão Isidro e Marcos, dois pescadores profissionais responsáveis por assar numa churrasqueira o famoso peixe na taquara. Eles mostram que há dois tipos de peixes na grelha: a piava e a tainha. Enquanto a piava é de água doce, mais clara e com formato mais quadrada, a tainha é de água salgada, mais alongada e escura. O tempero dos peixes é apenas o que há de melhor: limão e sal. Depois, os dois mostram uma fileira de taquaras cortadas ao meio, uma invenção simples e funcional que serve como um espeto. Assim o peixe fica preso na taquara e pode ser colocado facilmente sobre a grelha sobre a lenha em brasas.

Dentro do refeitório, Kátia, esposa de Marcos, abastece o buffet com mais arroz e pirão. Ela é a responsável pelos pratos quentes, saladas e também por um gostoso bolinho de peixe que fica ainda melhor com algumas gotas de limão.

Enquanto alguns clientes ainda repetem o prato no buffet, outros circulam por uma pequena loja da cooperativa que vende artesanato feito com escamas e espinhos de peixes. São brincos, colares e anéis, tudo feito pelos moradores da ilha.

Com o sol mais baixo no horizonte, os garçons estão recolhendo pratos e mais pratos repletos de espinhos empilhados. Até que, de repente, uma buzina é ouvida. É este o aviso de que o barco Sinval logo estará partindo de volta para Porto Alegre.

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