Sinônimo de democracia
Poucos locais de acesso público ilustram a palavra democracia de forma tão perfeita quanto os mercados municipais espalhados Brasil afora. Em Porto Alegre, é no Mercado Público que isso acontece. Atrás de sua fachada em tons amarelados, as diferentes classes sociais convivem em harmonia, com tudo que há de melhor da cultura popular.
O Mercado Público de Porto Alegre foi inaugurado no dia 03 de outubro de 1869. Sua construção, em estilo neoclássico, enfrentou as agruras de um incêndio em 1912, acidente que destruiu quatro chalés de madeira que existiam em seu pátio central. No ano de 1914, o segundo pavimento do Mercado foi inaugurado com a intenção de abrigar escritórios. Décadas depois, em 1979, uma lei determinou o tombamento o Mercado Público como Patrimônio Histórico e Cultural do Município de Porto Alegre. Na década de 90, iniciou-se a obra de restauração e remodelagem do local, sendo concluída em março de 1997.
Uma visita ao mercado
O horário ideal para visitar o Mercado Público é pouco antes do almoço. Para abrir ainda mais o apetite, o visitante pode inicialmente percorrer as inúmeras bancas de erva-mate; seja para procurar um kit de chimarrão – composto de cuia feita de porongo e bomba de prata com bocal banhado a ouro – ou comprar seu mate favorito. Quanto à escolha da erva, a decisão é feita conforme o gosto de cada um. Na Casa da Erva-Mate, por exemplo, são muitas as opções disponíveis: erva moída grossa, moída fina, mais amarga, menos amarga. Mas apesar dos funcionários insistirem que cada gaúcho tem sua marca favorita, há uma lista das “12 mais”. São elas: Barão, Canarinho, Casseri, Flor Verde, Fontana, Madrugada, Petry, Raízes, Rei Verde, Saphira, Tertúlia, Vier.
Com o pacote de erva-mate já debaixo do braço, vale a pena dar uma passada na Banca 43. Lá, além de rapaduras e cachaças de qualidade, feitas perto dali, em Santo Antônio da Patrulha, é possível também encontrar produtos de locais distantes como pães holandeses, chás ingleses, haddock escocês ou presunto cru espanhol. Uma boa opção de compra é o Steinhagen – que em Porto Alegre é também conhecido pelo nome de “trigo velho” – um destilado que os locais gostam de tomar junto com o chope. Uns chegam até a fazer o chamado “submarino”, ou seja, mergulhar o cálice com a dose de Steinhagen dentro do copo e tomá-lo com ele lá dentro.
Quando a fome estiver falando alto, o Gambrinus é uma ótima opção para saciá-la. O local, que abriu suas portas em 1889, funcionava originalmente apenas como um bar. Porém, em meados de 1964, o proprietário Antônio Dias de Mello, o Antoninho estabeleceu seu formato atual: um restaurante descontraído que funciona também como choperia. Quando, em 1960, a prefeitura teve a intenção de demolir o Mercado Público, Antoninho foi um dos integrantes da comissão contra sua demolição. O cardápio do Gambrinus oferece três ou quatro especialidades diárias, sendo que o dia mais tradicional de almoço é a sexta-feira, devido à tainha recheada com camarão.
Cardápio semanal do Restaurante Gambrinus
Segunda-feira:
- Bife Enrolado c/ Ervilha ao Molho
- Bife de Fígado ou Iscas Grelhadas e/ou Aceboladas
- Feijoada a Gambrinus c/ Arroz, Couve e Farofa
- Escalope de Filé c/ Champignon ao Molho Madeira
Terça-feira:
- Bife de Lombinho de Porco ou Febras Grelhada c/ Feijão Mexido
- Língua Ensopada c/ Batata e Ervilha ao Molho
- Rabada à Gambrinus c/ Polenta e Agrião
Quarta-feira:
- Almôndegas Aceboladas ao Molho c/ Feijão Mexido
- Chuleta de Rês a Rio Grandense c/ Salada Mista
- Frango Grelhado c/ Purê, Ervilha ao Molho Manteiga
- Mocotó Completo, c/ Azeitona, Ovo e Tempero
Quinta-feira:
- Carreteiro de Charque c/ Feijão
- Costeleta de Rês, c/ Aipim ou Nhoque
- Kibe Cru ou Frito
- Rins ao Molho Madeira c/ Batatas Cozidas
Sexta-feira:
- Anchova ou Taínha Recheada c/ Camarão
- Anchova ou Taínha Techeada c/ Camarão e Siri
- Filé de Peixe: Congrio, Linguado, ou Rei, c/ Salada de Bacalhau a Maneco Espina (desfiado c/ Batatas)
Tradições
A Banca 40 é o melhor local para conhecer uma tradição porto-alegrense que sobrevive há décadas: comer salada de fruta. A sobremesa, que é encontrada por tudo que é canto da cidade, de padarias a restaurantes sofisticados, pode ou não ser acompanhada de sorvete ou nata. Na Banca 40, é possível encontrar tanto um solitário senhor de idade saboreando uma taça de salada de frutas quanto uma família numerosa também curtindo esse simples prazer.
Outra tradição do Mercado Público é o caldo de mocotó servido em dias frios do Bar Naval. O local, que funciona desde 1907, tem fotos coladas em suas paredes de personalidades que foram ou são assíduos freqüentadores.
Com bem mais de um século de vida, enfrentando crises ou não, o Mercado Público de Porto Alegre tornou-se um sagrado patrimônio histórico. Um local para que os diferentes moradores da cidade possam conviver e comprar tanto um caro azeite trufado quanto 200 gramas de erva-mate.
O Chalé da Praça XV
O Chalé da Praça XV, incrustado entre prédios em pleno centro de Porto Alegre, ainda carrega seus traços originais de fins do século XIX. Fabricado em aço desmontável inglês, o chalé tem estilo art noveau, com traços de arquitetura bávara. Sua inauguração como restaurante aconteceu em 1911, quando ficou conhecido na cidade por servir sorvetes, uma novidade na época. Localizada no largo Glênio Peres, diante do Mercado Público, um dos raros locais na cidade onde se encontra um fotógrafo lambe-lambe, a casa, que é tombada pelo Patrimônio Público Municipal, foi restaurada em 1998. Os garçons, vestidos como antigamente, de gravata borboleta e colete, contam que o local era ponto de encontro de políticos, intelectuais e personalidades. Hoje a clientela varia entre executivos que gostam de almoçar debaixo de suas árvores centenárias e senhoras que chegam para tomar seu chá da tarde.

