Facas artesanais

No Rio Grande do Sul, um dos assuntos principais entre dois assadores – nome usado pelo gaúcho para designar aqueles que preparam o churrasco – é a faca de cada um. Sempre que aparece alguém com um novo instrumento cortante, ele é logo analisado pelos demais. O cabo é checado minuciosamente; o fio é testado em materiais diversos como carnes, folhas de papel e até mesmo em latas de alumínio pelos mais entusiasmados. Só depois de um consenso geral sobre a qualidade da faca, o assador retorna a sua função junto ao fogo.

Seu Enor dos Santos sempre adorou facas. Porém, foi somente ao se aposentar que descobriu ser capaz de produzi-las. Para isso, transformou seu porão num ateliê. Lá ele curte o seu hobby: transformar instrumentos cortantes e ossos de animais em facas. Enor conta que a maioria de suas facas é feita de materiais como gadanho, tesoura ou facas enferrujadas. E que o cabo da faca provêm de ossos ou chifres de animais. Sua curtição é justamente transformar algo sem valor em um produto resistente e útil.

Seu Enor conta que seus amigos e conhecidos adoram presenteá-lo com materiais diversos: ossos de canela de ema, couro de tatu, foices centenários, facões enferrujados. Lembra que já ganhou até mesmo um enorme par de chifres de alce canadense. E logo o transformou num cabo rústico e resistente. E para completar o toque de profissionalismo no hobby levado tão a sério, Enor faz questão de entregar suas facas dentro de bainhas de couro confeccionadas por ele mesmo.

Com certeza, a faca do senhor Enor seria um ótimo assunto de debate entre os assadores mais exigentes.