Pescando com moscas
“Nenhum momento perfeito é eterno, exceto em nossas lembranças”. Esta é a frase estampada no cartaz do filme Nada É Para Sempre (A River Runs Through It), que conta a história de uma família de pescadores no belo estado de Montana, EUA. A frase citada é a que melhor expressa o sentimento de quem conhece a região de São José dos Ausentes. Assim como em certas regiões em Montana, no filme americano, São José dos Ausentes se tornou conhecida como um pólo de pesca tipo fly – uma pescaria onde se usam iscas artificiais semelhantes a moscas.
Um lugar paradisíaco
A região ao redor de São José dos Ausentes parece um lugar dos sonhos. É difícil acreditar que tamanha beleza possa existir a poucos quilômetros de centros urbanos brasileiros. O município é o mais elevado do Rio Grande do Sul, a 1200 m de altitude, e também o mais frio. No inverno, casualmente, uma fina camada de neve cobre a vegetação de gramíneas. Neste local, onde ficam as nascentes dos rios das Antas e Pelotas e onde coxilhas e cânions fazem parte da paisagem, é difícil crer que seu nome deve-se ao fato de os primeiros sesmeiros terem abandonado suas terras. Como pôde alguém deixar para trás um lugar tão paradisíaco? Foi por causa disso, que a terra, ao ser leiloada duas vezes em “juízo dos ausentes”, ganhou o intrigante nome de São José dos Ausentes.
Localizada às margens das águas cristalinas do rio Silveira, a Pousada Fazenda Potreirinhos é um centro de hospedagem de empolgados pescadores fly. A casa de madeira, sede da fazenda, foi construída por volta de 1930. Os anfitriões são os próprios donos, Chico e Nilda Salib. O casal consegue fazer qualquer um sentir-se em casa. Sabem também que a maioria de seus hóspedes adora acordar cedo e ir logo pescar. Por isso, o café da manhã não tarda: pães e bolos caseiros, frutas, café bem forte e outras delícias. Afinal, os pescadores devem estar bem nutridos, pois só devem retornar à pousada para o almoço: comida campeira feita no fogão à lenha.
Fly fishing
Após o farto café da manhã, os apreciadores da pesca tipo fly saem em direção ao rio. Eles contam que o fly é o filé mignon das pescarias, algo que pode facilmente se tornar um vício, uma paixão. Outros dizem ser uma filosofia de vida, uma forma de cultivar um espírito de tranqüilidade e harmonia. Porém, a tradução literal do fly fishing é “pescar com mosca”.
A pesca é praticada com uma vara longa e uma linha pesada que serve para arremessar uma isca quase sem peso. Uma das regras do esporte é retornar com a truta para o rio depois de ter sido pescada. Assim, os pescadores trocam olhares com o peixe, alguns registram o momento em fotografia e pronto: devolvem-na para a água. A exceção acontece somente quando, ocasionalmente, ele opta por se alimentar do peixe.
Duas técnicas compõem o aprendizado do Fly: o Fly Casting, que é o ato de arremessar a linha e o Fly Tying, que é o processo de atar suas próprias iscas. O arremesso de fly é feito para levar o peso da linha até o ponto desejado; ao contrário da pesca tradicional onde se usa o peso da isca para levar a linha até o alvo. Uma curiosidade: o recorde mundial de arremesso de fly é 106 metros de alcance, enquanto o arremesso médio de um praticante é de 17 metros.
Para ser um bom pescador de fly, é preciso adivinhar o que a truta deseja comer ao longo do dia. Seu cardápio pode variar entre pequenas moscas, larvas jovens, ou insetos suculentos. Os pescadores também devem saber como se comportam determinadas moscas, serelepes ou estáticas, e transmitir essa vida para a isca artificial na ponta da linha. Um especialista conta que suas iscas favoritas são aquelas que parecem com pequenas moscas, que deslizam silenciosamente pela água. São as mais efetivas. Mas ele conta que há dias em que se levam horas até adivinhar o que as trutas estão a fim de comer. Ou então, há momentos em que a fome do animal é tamanha que o pescador acaba fisgando a mesma truta várias e várias vezes ao longo do dia.
Com o dia já ganhando tons dourados, os pescadores decidem encerrar a pesca. Agora, eles querem é retornar logo à pousada para um banho bem quente e o jantar. Quando a noite chega todos estão de volta à cozinha. Pela janela, pode-se avistar a luz da lua banhando o rio onde pescavam. A conversa flui naturalmente enquanto Nilda termina o preparo de um caldo de abóbora.
Ela e Chico contam que a idéia de transformar a fazenda num local para recepcionar pescadores surgiu de uma proposta de dois apaixonados pelo esporte. O cartunista Carlos Henrique Iotti e o empresário Irineu Rocha, ambos de Caxias do Sul, convenceram o casal a explorar esta forma específica de turismo. Para isso, propuseram organizar o “Orvis Day”, ou dia da pesca, onde reuniriam vários pescadores com o intuito de conhecer a beleza da região. E isto aconteceu exatamente nos dias 26 e 27 de julho de 1997. Dali em diante, tanto São José dos Ausentes quanto a Pousada Fazenda Potreirinhos se tornaram referência da pesca fly no Brasil.

