Um dia em rios, matas, igapós e igarapés.

Aliomar, um nortista típico, baixinho e simpático, anuncia: é hora de embarcar. Era esse o sinal que o impaciente grupo de turistas do saguão no Porto Flutuante de Manaus ansiava em ouvir. O guia pede a todos que entrem num ônibus cujo destino final é o local onde os barcos ficam atracados. É este o começo de um passeio de barco em que o ponto alto é o espetáculo conhecido como encontro das águas. Dois rios muito diferentes – o Negro e o Solimões – se unem para formar o portentoso Amazonas, o maior rio do mundo em volume de água.

Com um boné na cabeça para se proteger do sol, Ali, como Aliomar prefere ser chamado, vai explicando tudo, primeiro em português e depois em inglês. “A estrutura deste porto veio desmontada da Inglaterra e foi toda ela erguida sobre bóias. Isso em 1904”. Entre os presentes, há alguns brasileiros e muitos estrangeiros, a maioria, japoneses e coreanos. As câmeras dos orientais, assim como os celulares dos brasileiros, clicam as primeiras fotos. Ali segue informando que o cais é flutuante para facilitar o embarque e desembarque de cargas e passageiros, uma vez que a variação entre a alta e a baixa do rio é em média de 8 metros por temporada.

O grupo desce do ônibus e embarca no barco Paraíso Verde. São nove horas da manhã. O piloto liga os motores e inicia a saída do porto, circundando as muitas embarcações ancoradas. Ele diz haver mais de 70.000 barcos registrados somente em Manaus; a maioria, “gaiolas” – tradicionais barcos largos de madeira que circulam pelo Amazonas. Em todas elas há ganchos pregados por tudo que é canto. Assim, os passageiros podem estender suas redes durante as viagens cujas distâncias não são calculadas em quilômetros, e sim em dias.

O Paraíso Verde passa diante de casas humildes de madeira erguidas sobre toras longas e finas. São as palafitas, construções onde vivem muitos manuaras. Em época de cheia, não são raras as ocasiões em que os moradores de palafitas são obrigados a construir um novo assoalho para abrigar tudo que possuem. Somente quando a água abaixa, o que pode demorar até dois meses, é que tudo volta ao normal.

Seguindo adiante, Ali aponta o mercado municipal de Manaus. Construído no final do século 19, é conhecido também pelo nome de Mercado Adolpho Lisboa. Diante dele, muitos dos barcos atracados estão sendo descarregados por trabalhadores braçais. É este o local aonde chegam as frutas, os peixes, os grãos e as raízes que abastecem a capital.

O boto

De repente, um turista grita de olhos arregalados: “Ali, acho que vi um boto!” O guia, sem se surpreender, diz que é comum avistar botos nesse local, por causa dos restos de peixes jogados dentro do rio pelos pescadores que ali atracam. O grupo passa então a observar os arredores do barco. Instantes depois, apanhando todos de surpresa, o boto reaparece. E logo mergulha mais uma vez, sumindo da superfície. Todos miram suas câmeras em direção à água na esperança de que ele retorne. O piloto do Paraíso Verde desliga o motor para não assustar a inesperada atração da viagem. Todos esperam pacientemente. Até que o boto, para alegria dos excursionistas, aparece mais uma vez. Ouvem-se os cliques frenéticos das câmeras e, segundos depois, ele submerge nas nas águas do Rio Negro.

A Lenda do Boto

Conta-se que nos dias de festas em comunidades ribeirinhas, o boto sai da água e se transforma em um elegante e belo rapaz. Vestido de terno branco e chapéu (para esconder o orifício na cabeça por onde respira), o jovem seduz as moças com seu fácil galanteio. Dias depois, caso apareça na comunidade alguma moça grávida sem marido, diz-se que foi o boto que a engravidou.

Com o mercado já distante no horizonte, o barco segue rio abaixo em direção à foz do rio Negro. Ali apanha um microfone e oferece caipirinhas de boas-vindas ou xícaras de cafezinho para os que preferem beber somente depois do meio-dia. Todos descem para o andar de baixo do Paraíso Verde, onde são servidas as bebidas. Como tira-gosto, o ajudante do barco oferece a opção de iscas de peixe a dorê.

Os hotéis de selva

Muitos dos turistas que chegam a Manaus partem diretamente do aeroporto para os hotéis de selva. Essas hospedagens somente podem ser alcançadas por barco ou, para os mais afortunados, helicóptero. Se a semelhança entre um hotel e outro está nas cercanias da floresta amazônica, as diferenças estão na estrutura de cada um, assim como no conforto oferecido aos hóspedes. Existe desde o hotel mais simples, sem eletricidade, até os mais sofisticados. A maioria dos pacotes inclui diária completa e alguns oferecem observação noturna de jacarés, pesca de piranhas, visita a tribos indígenas, canoagem entre igapós e igarapés (na época de cheia) ou caminhada na mata (durante a seca).

O encontro das águas

Mesmo com o barco ainda distante centenas de metros do ponto de encontro entre os rios Negro e Solimões, é possível avistar as diferentes tonalidades de suas águas. Conforme o Paraíso Verde se aproxima do local, todos vão se reunindo no convés, entusiasmados com o fenômeno. Ali liga o microfone e conta que o encontro das águas acontece há aproximadamente 15 km do Porto Flutuante de Manaus. Ele explica também que enquanto o rio Negro nasce perto da fronteira do Brasil com a Colômbia, o Solimões tem sua origem nas cordilheiras andinas no Peru.

O barco desliza sobre a água azul-escura do Negro, e cor de caramelo do Solimões. Ali conta que o Solimões apresenta águas barrentas e ricas em nutrientes, corre em média a 6 km/h, e apresenta temperatura de aproximadamente 28ºC. Já o rio Negro possui águas escuras e ácidas, corre a apenas 2 km/h, e tem a temperatura de em torno de 22ºC. É por isso e pela diferença de densidade de cada um que eles correm lado a lado, sem se misturarem, por 6 km. Depois de percorrida essa distância, já unidos e batizados de Amazonas, passam a formar um só rio, que corre mais 1500 km antes de alcançar o oceano Atlântico.

Depois de muitas fotos nesse cenário único, alguns tomam assento enquanto o Paraíso Verde se distancia do encontro das águas. O barco segue agora em direção ao restaurante flutuante do Valdecy. Enquanto isso, para distrair o grupo até o próximo destino, Ali convida todos a se refrescarem com fatias de melancia colocadas sob uma bandeja num canto do barco.

A população ribeirinha

Ainda saboreando as melancias, o grupo vê Ali gesticular em direção à margem do rio. Notam-se então várias casas erguidas sobre a água. O guia conta que são as moradias de ribeirinhos. O rio é tão vital para essas pessoas que, quando indagadas sobre o local de nascimento, elas costumam dizer “nasci no Solimões”; “sou do Madeira”; ou “nasci no Tapajós, mas cresci no baixo rio Negro”.

O chamado povo ribeirinho inclui desde descendentes da raça indígena e branca, até índios fora de sua tribo, que vivem como homens brancos, ou habitantes de outra região do país que migraram para o Amazonas em busca de trabalho. Os ribeirinhos são pessoas que conhecem muito bem os rios e a floresta onde vivem. Eles conseguem caminhar pela mata à noite sem se perder, curar picada de cobra com raízes ou usar troncos específicos para construir isto ou aquilo. Sabem ainda quais são as melhores épocas e lugares para pescar, as propriedades de cura de cada erva, ou até como se locomover de canoa sem espantar as aves ou peixes. Ali brinca ao lembrar uma das vantagens de ser ribeirinho: “Se aparecer um vizinho chato, basta desamarrar sua casa do tronco e arrastar para o outro lado do rio”.

Por morarem isolados da civilização, os ribeirinhos possuem preocupações e prioridades diferentes das do homem urbano. Nem sempre a questão ambiental é pensada de acordo com a cultura e a rotina desse povo. Afinal, como conta o poeta amazonense Thiago de Mello, em um de seus textos, não basta que um ambientalista chegue junto de um ribeirinho e lhe diga que um animal está em extinção, que é proibido caçá-lo. É preciso ensiná-lo alternativas. Senão é capaz do ambientalista, ao dizer que o peixe-boi está desaparecendo, ouvir de um ribeirinho que “isso é coisa de homem da cidade, que é mentira, pois ontem mesmo eu consegui arpoar dois deles na maior facilidade”.

Minutos depois, o Paraíso Verde atraca no cais do restaurante flutuante do Valdecy, no lago de Janauary. O grupo desce do barco e é guiado por Ali por uma estreita passarela de madeira que corta a mata. Por ser a estação das cheias, a passarela corre por sobre mata alagada. Após cinco minutos de caminhada, sob a sombra de imensas árvores, chega-se a um mirante com vista para um lago repleto de vitórias-régias. Ali chama a atenção de todos para algo que ninguém notou: um jacaré toma sol a poucos metros de distância. E assim permanece; imóvel e indiferente à agitação dos fotógrafos.

Passado o entusiasmo inicial com o jacaré, Ali conta que a vitória-régia é mais comum em águas rasas e durante a época das cheias. A maior planta aquática foi batizada de Vitória em homenagem à rainha Victoria, da Inglaterra. Suas folhas pesadas podem medir até dois metros de diâmetro. Já suas flores, que sempre nascem à noite, são inicialmente brancas, mas, com o passar do tempo, se tornam rosadas e depois roxas. A parte inferior da planta é repleta de espinhos que servem para espantar os predadores. Segundo Ali, as folhas maiores podem agüentar uma criança pequena (12 a 15 quilos) deitada sobre elas.

Depois de caminhar de volta até o restaurante flutuante, o grupo se divide em duas canoas motorizadas. O passeio prossegue por um rio inicialmente largo que vai se afinando até virar um estreito igarapé. É quando se podem ouvir os primeiros sons de mata fechada e observar árvores centenárias. Do igarapé, a canoa se aventura por um igapó – uma mata alagada em tempos de cheia.

O igapó

A paisagem que, instantes antes, era um horizonte largo com muito céu e água, muda abruptamente. James, um dos turistas a bordo, pula para a primeira fileira do barco para melhor fotografar as imensas árvores que surgem a cada instante. Apesar do nome incomum, estatura de mais de dois metros e sandália de dedo que prende no calcanhar, James é brasileiro. Ele ouve com atenção as explicações de Ali sobre as árvores avistadas: “Esta é a piracuba, usada pelos índios para fazer arcos devido à sua grande flexibilidade. Essa outra é o assacu, que possui uma madeira muito boa para ser usada em flutuação. As casas de ribeirinhos construídas com assacu duram de 35 a 40 anos sobre a água”. A canoa passa quase raspando em um imenso tronco. “Esta árvore aqui é a samaumbeira, que não possui nenhum valor comercial, pois sua madeira é muito leve. Mas ainda assim é muito importante por aqui. Afinal, ela é o telefone celular do índio”, brinca Ali.

“A samaumbeira serve para as tribos comunicarem entre si. Os índios batem na madeira com um pedaço de pau e o som ecoa pela mata. Cada batida tem um significado diferente”. James ri da piada enquanto fotografa a árvore. Enquanto isso, Ali identifica uma palmeira e pede ao canoeiro que pare por um instante. Ele colhe um cacho de coquinhos escuros e mostra: “Esse aqui é o marajá. Mas não é marajá gente não. É marajá fruta”. Ali lava o cacho no rio e ensina a todos como o fruto deve ser provado. “Basta espremer o coquinho dentro da boca com os dentes. Depois é só chupar a polpa que cobre a semente”. Todos experimentam e aprovam o gosto do marajá.

Dentro do igapó, os sons da mata são notados com clareza. Há pios curtos e pios longos. Pios Graves. Ou chorados. São muitas as aves que habitam a mata e cada uma delas emite um som diferente. Há também a algazarra dos micos pulando entre os galhos e o vento soprando folhas de tudo que é tamanho. Ouvem-se ainda muitos barulhos não-identificados, que servem para estimular a imaginação.

Nos igapós, a temperatura é amena devido à grande quantidade de sombra. Apenas alguns raios solares conseguem penetrar por entre a mata e alcançar o solo alagado. Nesse ambiente a água é rasa e o local costuma ser o habitat de dois dos peixes mais populares dos cardápios de Manaus: o tambaqui, que se alimenta de frutas caídas das árvores, e o pirarucu, um peixe de escamas que pode alcançar mais de dois metros de comprimento.

Parada antes do almoço

A canoa deixa o igapó e desliza veloz pelo rio até alcançar a última parada antes do retorno ao restaurante. O local é um cais flutuante usado por ribeirinhos para ganhar algum dinheiro vendendo artesanato, frutas regionais como biriba ou cupuaçu, ou bebidas como cervejas e refrigerantes. O grupo desce da canoa e se dispersa pelo local. Alguns entram na loja para checar os preços de piranhas empanadas, colares feitos de escamas de pirarucu ou brincos de penas de araras e papagaios. Enquanto a maioria se refresca com água de coco, James, o turista alto, vê uns meninos de no máximo cinco anos pulando de árvores para dentro d’água. As crianças parecem tão felizes que James decide se juntar a elas. Enquanto Ali brinca que a água deve estar infestada de piranhas, os meninos já sobem mais uma vez na árvore. Como se fossem macaquinhos, eles alcançam o topo com facilidade e pulam na água com alegria. James, ao inventar de fazer o mesmo, com seu jeito desengonçado, não chega nem até a metade do caminho. Estático no tronco e empacado como um burro de carga, o varapau desiste de continuar subindo e pula na água dali mesmo. Assim, os meninos voltam para sua brincadeira, enquanto Ali chama todos de volta ao barco.

São duas horas da tarde: hora do almoço no restaurante flutuante do Valdecy. Junto do Paraíso Verde, há também outros barcos atracados. A maioria é de grupos de excursão vindos de Manaus, com muitos turistas de pele clara e rosada, estrangeiros encantados com a simplicidade e o exotismo do local. Junto ao bufê, uma fila vai se formando. O cardápio inclui salada, arroz, feijão, macarrão e peixes regionais. De sobremesa, frutas e gelatina. Todos comem sem pressa, sentados em bancos longos de madeira e batendo papo em várias línguas. Ao término do almoço, alguns descansam no barco e outros checam uma loja anexa ao restaurante em busca de alguma lembrança do passeio.