Os encantos da orla
O sol brilha baixo no horizonte. É véspera de feriado de Semana Santa em Santarém. A orla da cidade está apinhada de gente. Barcos lutam para atracar. Na calçada, um senhor disputa a atenção de passageiros com um megafone, anunciando destinos, preços e horário de partida. Mais adiante, uma mãe paga um sorvete para a filha se distrair enquanto esperam a hora do embarque. Esta é apenas uma parte do rico cenário ao redor da Avenida Tapajós, a mais movimentada da cidade.
A vida em Santarém, a segunda maior cidade do Pará, acontece diante da Avenida Tapajós. Conhecida também como a “avenida da orla”, ela margeia o rio, atravessando o centro da cidade de uma ponta a outra. Em seu entorno, há barcos, lojas, o mercado municipal, a feira de peixes, as barracas dos ambulantes e tudo aquilo que torna Santarém uma cidade tão pulsante.
A “pérola do Tapajós”, o carinhoso apelido de Santarém, dista 1500 quilômetros de Belém, ou 50 horas de barco. Localizada na confluência dos rios Tapajós e Amazonas, Santarém é o ponto intermediário entre Belém e Manaus. Sua história remete ao ano de 1626, quando o português Pedro Teixeira descobriu índios tapajós morando na foz do rio de mesmo nome. Após uma época marcada pela luta de terras entre índios e brancos; em 1661, o padre João Felipe Bettendorf foi enviado ao local para iniciar a catequese dos índios, originando assim a sede do município. Hoje, com cerca de 300 mil habitantes, Santarém é um dos principais portos do Amazonas.
O mercado municipal
O mercado municipal de Santarém, ou Mercado Ano 2000 como é oficialmente chamado, é o principal destino para quem busca conhecer os ingredientes locais. O disputado estacionamento se dá pela Avenida Tapajós. Ali está a entrada principal, pela qual se chega ao setor destinado aos peixes e frutos-do-mar. Pela manhã, as opções de pescados são maiores: tucunaré, pirapitinga, acari-bodó, tambaqui, pirarucu, dourada, tamuatã e outros. Além dos peixes, pode-se encontrar outra atração local: o aviú.
O aviú é um micro camarão muito comum nas águas rasas da região. Seu minúsculo tamanho, que não ultrapassa o comprimento de uma unha, já foi motivo de piada entre um cozinheiro brincalhão. Sempre que alguém mais inocente, de preferência vindo de outras regiões do Brasil, inventava de trabalhar em seu restaurante, a primeira tarefa que dava ao novato era a de limpar um quilo de aviú. Para isso, o cozinheiro, com cara séria, lhe entregava uma pinça, obrigando-o a retirar os insignificantes olhos do aviú que não medem mais que um pingo de i. Foram muitos os amadores que encaravam a tarefa sem titubear, tornando um ótimo motivo para risos e gargalhadas.
Continuando o passeio pelo mercado, encontra-se a área dos grãos, temperos e raízes. Uma das barracas oferece inúmeras espécies de feijão. Uma delas chama a atenção. E, novamente, por ser algo tão minúsculo. O feijãozinho de Santarém mede a metade do tamanho de um tradicional feijão carioquinha. Por ser bem macio depois de cozido e derreter na boca como manteiga, é conhecido também como feijão Manteiguinha. O grão, de cor bege, é cultivado em larga escala em Santarém e arredores. Em casa ou em restaurantes, pode ser servido da forma tradicional, com arroz, ou em saladas de tomate e cebola regadas com azeite e gotas de limão.
A cerâmica tapajônica
Séculos atrás, a região de Santarém foi habitada pelos índios tapajós. A tribo cultivava a tradição de representar seus costumes e personagens em desenhos feitos em peças de cerâmica. Havia ainda a cultura de usar artefatos em cerimônias sagradas. Dentre as técnicas indígenas, destaca-se o uso de bicromia – traçado em vermelho sobre o branco. No mercado municipal de Santarém, há lojas que vendem réplicas da antiga cerâmica tapajônica.
Diante do mercado, ao atravessar a Avenida Tapajós, há uma feira de frutas e peixes. Se dentro do mercado há peixes nobres, na rua o que vale é o preço baixo para que as camadas mais humildes sejam atendidas. Dentre as frutas encontradas na feira, uma delas é bastante popular entre os feirantes: a pupunha, uma fruta redonda encontrada numa palmeira do Amazonas.
Junto da feira, senhoras circulam carregando caixas de isopor sobre o ombro. Dentro delas, há sacos plásticos com pupunhas cozidas. Notam-se gotículas de vapor dentro aprisionadas dentro dos saquinhos. Estranhamente, observa-se que a pupunha está quente, que foi cozida. A ambulante explica o fruto jamais é consumido cru, e sim depois de fervido em água com sal. Para ser provado, deve-se descascá-lo e provar sua polpa amarelada e fibrosa. A vendedora diz que a pupunha vai muito bem junto de um gole de café, e oferece a bebida. O sabor da fruta lembra o de uma pamonha. O dueto café e pupunha cozida é um dos lanches favoritos dos santarenses no fim de tarde.
Um outro espetáculo oferecido pela orla de Santarém é ver o encontro dos rios Tapajós e Amazonas de terra firme. Mesmo estando no centro da cidade, é possível avistar as diferentes tonalidades dos rios correndo paralelamente. De um lado, o Amazonas e suas águas em tom de caramelo. Do outro, o Tapajós em seu esplendor azul-esverdeado. Para quem prefira ver de perto esse fenômeno da natureza, há a opção de passeios de barcos que saem do atracadouro em frente ao mercado municipal.
Com o passar do dia, o movimento na orla não parece diminuir. Apesar de ser muitos os barcos que partem, sempre há outros também chegando. Não é possível distinguir se as pessoas que circulam com malas na cabeça estão de saída ou acabaram de chegar. Se a mulher que amamenta o filho, sentada sobre sua bagagem, está descansando ou se preparando para uma longa viagem. Se os copos de plásticos com pupunha cozidas são um alimento para nutrir a viagem ou apenas um conforto para passar o tempo.
Numa barraca montada na praça principal, redes multicoloridas são escolhidas por futuros viajantes. Já dentro do barco, outros buscam o melhor local para pendurar sua cama. As redes formam um emaranhado de tons. Gingam dependuradas em ganchos enferrujados.
No meio do rio, há postos de gasolina. Barcos estacionam para encher o tanque. Enquanto isso, um navegador estuda o céu, temeroso com a formação de algumas nuvens. Ele conta que o mal tempo pode ser um problema para algumas gaiolas – as tradicionais embarcações do Amazonas. Caso a chuva seja seguida de vento forte, muitos passageiros insistem em buscar abrigo no lado seco, concentrando o peso de um só lado. “Agora o controle com o número de passageiros é grande. São raras as gaiolas que desobedecem a lotação. Essas sim, quando chove e venta… ai ai, podem virar”. O navegador conta que atualmente a preocupação maior é fazer o tempo correr mais rápido a bordo. Porque é a duração das viagens, longas, demoradas, que costumam ser o problema maior daqueles que partem do porto de Santarém.

