Preciosidades no primeiro calçadão do país
Ao cair da noite de uma sexta-feira, 19 de maio de 1972, uma idéia inovadora começou a ser concretizada em Curitiba. À partir dessa data, o tráfego de carros foi proibido em uma determinada rua no Centro. O então prefeito da cidade, Jaime Lerner, enfrentou inúmeros protestos, mas não abriu mão de sua idéia: transformar uma rua em um calçadão exclusivo para pedestres.
A rua escolhida para o ambicioso projeto foi a XV de Novembro, no centro da cidade. As obras começaram logo depois das 18 horas e, com o expediente encerrado, a justiça não teve como julgar o mandato de segurança requerido por comerciantes que temiam perder a freguesia. Meses depois, o sonho de Lerner foi concretizado: Curitiba inaugurou a primeira rua exclusiva para pedestres do país. Estava assim inventado o conceito do Calçadão.
Com o passar do tempo, ficou provado que a idéia de Jaime Lerner deu certo. A rua XV de Novembro, também conhecida como rua das Flores, foi uma solução criativa para revitalizar o comércio do centro da cidade. O exemplo curitibano logo foi seguido por outras capitais como Porto Alegre e São Paulo. Hoje, o calçadão de Curitiba, que consiste num trecho entre as praças Osório e Santos Andrade, é um dos principais pontos de encontro da cidade; um local onde lazer, trabalho, comércio e cultura se misturam em harmonia.
Ao longo de todo o calçadão é possível encontrar inúmeras preciosidades gastronômicas; algumas tradicionais e outras contemporâneas. Mas cabe a cada um dos inúmeros pedestres que por ali passam diariamente descobrir sua preferência, seja bebericando um expresso sentado num quiosque ou tomando de supetão uma vitamina de frutas de pé no balcão de uma lanchonete.
Uma enorme fila
Aqueles que passam pela primeira vez diante o número 80 da rua XV – como é chamada carinhosamente pelos curitibanos – podem estranhar a presença de uma enorme fila diante de uma lanchonete. Há quem pense que o motivo da fila seja a distribuição de algum brinde. Mas não é esse o caso. As inúmeras pessoas esperam pacientemente a sua vez para comprar uma magnífica coxinha de frango com Catupiry®. A lanchonete Dois Corações serve uma deliciosa coxinha, sequinha por fora e suculenta por dentro. A vitrine da lanchonete é abastecida sem parar. A cada dez minutos, são mais 30, 40, 50 salgados que são consumidos de forma voraz. Uma das funcionárias quando indagada quantas coxinhas saem por dia, responde: “Não sou doida para ficar contando. Mas são um monte delas. E toda hora. Sem parar”.
O Bar Mignon
O Bar Mignon funciona desde 1925, e exatamente no mesmo lugar: no número 42 da rua XV de Novembro. É um dos locais mais tradicionais da capital paranaense. Suas especialidades são o cachorro quente e o sanduíche de pernil com cheiro verde, que podem ser saboreadas em mesas que ficam debaixo de um toldo de acrílico roxo, localizado em pleno calçadão. Assim, a vida de rua pode ser acompanhada junto de um farto almoço. Mas há outra opção que é bastante seguida pelos freqüentadores mais assíduos do Bar Mignon. Estes preferem almoçar em pé no balcão, um do lado do outro, num corredor apertado. Assim, podem ver tanto o cozinheiro preparando bistecas com ovos fritos ou bifes acebolados, que são servidos acompanhados de salada de batata, arroz branco ou batatas, quanto jogar conversa fora sobre temas políticos ou esportivos.
A difícil escolha de um doce
No número 374 da rua XV de Novembro está uma das confeitarias mais antigas de Curitiba, a Confeitaria das Famílias, inaugurada no dia 20 de outubro de 1945 pelo espanhol Jesus Alvarez Terzado. O imigrante chegou ao Brasil em 1936, tendo passado antes por Cuba, Argentina, Portugal, França e Itália. Ao abrir o negócio, Jesus sabia que o sucesso inicial só seria alcançado se empenhasse bastante em fabricar doces de alta qualidade. O espanhol, que chegou a ganhar um concurso de melhor folhado doce na França, fabricava seus produtos à noite para vender durante o dia.
Anos depois, o destino encaminhou para dentro da confeitaria a senhora Dair, que em breve se tornou esposa de Jesus. Após o falecimento de Jesus na década de 80, foi Dair quem assumiu a confeitaria com o mesmo carinho e respeito pela qualidade dos doces. E, hoje, se há alguém que se sinta indeciso ao escolher apenas um doce dentre os inúmeros na vitrine, Dair faz questão em ajudar. Ela conta que seus favoritos são o bem casado, o madrileño – um folhado recheado com doce de leite – e as bombas de creme ou chocolate. Mas diz também, que seus fregueses adoram a fatia do bolo Marta Rocha – um pão-de-ló de 2 cores com creme de ovos e nozes, doce de leite, e cobertura de suspiro. “Há também aqueles que preferem o mil-folhas e o quindim”, revela Dair, e pergunta ao cliente se já conseguiu decidir em escolher apenas um único doce.

