O mais conhecido prato paranaense
O alvoroço na estação ferroviária de Curitiba começa cedo. Por volta das sete horas da manhã, o número de pessoas comprando passagens de trem já é grande. Muitos querem conhecer a ferrovia centenária Curitiba-Paranaguá, que liga a capital à pequena cidade histórica de Morretes. A idéia é chegar na hora do almoço. Ou seja, a tempo de saborear o mais tradicional prato paranaense: o barreado.
O apito do trem anuncia que todos devem tomar seus assentos. Já são oito da manhã e, em breve, o trem deixará a estação. Pontualmente, quinze minutos depois, o passeio começa. Muitos buscam sentar do lado esquerdo do vagão, de onde se avista melhor a paisagem. O trem segue pelos trilhos vagarosamente, cortando a capital em direção ao litoral. Aproximadamente 90 minutos depois da partida, surgem as primeiras vistas da mata atlântica: bromélias, samambaias gigantes, cipós, árvores de tudo que é tipo, idade e tamanho; além de lagos, cachoeiras, riachos.
Mais a frente o trajeto segue, passando por túneis, viadutos e pontes que ligam desfiladeiros. Ao fundo, a cadeia de montanhas da Serra do Mar que inclui um dos picos mais altos do estado: o Pico do Marumbi, com 1.539m de altura.
A ferrovia
A história da ferrovia Curitiba-Paranaguá teve inicio em 1870, quando Antônio Pereira Rebouças Filho, Francisco Antônio Monteiro Tourinho e Maurício Schwartz formularam um pedido de concessão para construir uma estrada de ferro. O objetivo da construção seria facilitar o escoamento comercial do planalto ao litoral paranaense. No dia 1º de maio de 1875, Dom Pedro II assinou o decreto que aprovou o projeto. A construção da ferrovia teve inicio em fevereiro de 1880, com as obras divididas em três seções: a primeira, com 42km, entre Paranaguá e Morretes; a segunda, com 38km, ligando Morretes a Roça Nova, e a terceira, com 30km, entre Roça Nova e Curitiba.
O tempo total da obra foi de cinco anos. Durante esse período, engenheiros, mestres de obras e trabalhadores braçais concretizaram um projeto encarado como impraticável por engenheiros europeus. Entretanto, o sucesso do empreendimento custou a vida de aproximadamente 5.000 homens do total dos 9.000 empregados na obra. Muitos trabalhadores eram estrangeiros, que decidiram abandonar a atividade rural que exerciam no Brasil desde quando aqui chegaram. A estrada de ferro Curitiba-Paranaguá foi inaugurada no dia 2 de fevereiro de 1885, às 10 horas da manhã. O primeiro trem partiu do litoral em direção à capital, conduzindo autoridades e convidados de honra.
Mais de um século depois de sua inauguração, a ferrovia, com sua extensão de 110 km, continua imponente. Um dos destaques do percurso é a Ponte São João, construída em alvenaria, que passa sobre um enorme desfiladeiro. O ponto mais elevado do trajeto está perto do Túnel Roça Nova, a 955m acima do nível do mar. O mais baixo está na estação de Paranaguá, a 5m de altitude.
A chegada a Morretes
Cerca de quatro horas depois do horário de partida, o trem chega a estação de Morretes. Apesar de seguir viagem até Paranaguá, é nessa pequena e charmosa cidade histórica que desce a maioria dos passageiros. O pacato povoado está há 68 km de distância de Curitiba e foi fundado em 1733. Suas balas de banana, assim como suas cachaças artesanais, são quase tão conhecidas quanto o saboroso barreado servido nos restaurantes da cidade.
Ao caminhar por ruas tranquilas, percebe-se que as construções coloniais estão bem preservadas, que as praças são arborizadas e que há gôndolas com turistas passeando pelo rio Nhandiaquara. O nome do rio que margeia Morretes é de origem indígena: nhundi significa peixe e quara, buraco. O rio Nhandiaquara foi também um dos rios mais auríferos da região, contribuindo economicamente para o desenvolvimento de estado.
Em Morretes são muitos os restaurantes que ficam ao lado do rio. E todos costumam servir a marca registrada da cidade: o barreado. Um desses restaurantes é o Casarão, uma construção preservada do século XIX. Sentar em sua varanda num dia de sol é um privilégio. A vista, além das tranqüilas águas do Nhandiaquara, inclui o imponente pico do Marumbi.
O barreado
Com o salão do restaurante lotado, um garçom alegre e descontraído explica a especialidade da casa: “O barreado tem que ser bem quente, fervendo. Isso porque ele precisa cozinhar a farinha que é colocada no prato”. Antes de prosseguir, o garçom chama um voluntário para ajudá-lo a demonstrar como se como prepara o barreado. Marcolino, um baiano que jamais experimentou o prato paranaense, é quem se apresenta. O garçom coloca duas colheres de farinha num prato fundo e pede a Marcolino para segurá-lo em suas mãos. Em seguida, por cima da farinha, coloca uma concha do barreado, um caldo escuro com carne desfiada.
“Agora, cuidado, se tudo der certo você nada vai sofrer. Mas fica quieto aí, porque vou ter que virar esse prato sobre sua cabeça. Só assim vou saber se o pirão – a mistura de farinha com o caldo -, está no ponto certo”, brinca o garçom. Ele pede a Marcolino para olhar para cima, enquanto termina de mexer a farinha com o caldo. E de repente, de supetão, o garçom vira o prato sobre a cabeça de Marcolino, que fecha os olhos. Todos aplaudem, o ponto do pirão está certo: ele ficou preso no prato, mesmo estando de cabeça para baixo. O garçom lembra também que fatias de banana devem acompanhar o prato para que este fique ainda mais gostoso. E assim, todos no restaurante começam a provar o prato que, além de saboroso, é também um símbolo de fartura e alegria.
A Estrada da Graciosa
No caminho de volta entre Morretes a Curitiba, o visitante deve optar em retornar por uma das mais belas estradas do país: a Estrada da Graciosa. Sua construção, apesar de iniciada em 1646, foi concluída no século XIX e tem como características uma pista estreita e sinuosa, com piso de paralelepípedo, que ziguezagueia por entre a vegetação de mata atlântica. As paisagens, admiradas em inúmeros mirantes ao longo do trajeto, incluem cachoeiras, riachos, além de flores e plantas tropicais.

